Na manhã de 20 de agosto de 2026, durante o encerramento da Expoagas 2026 no Teatro da Fiergs, em Porto Alegre, o cientista político, advogado e criador de conteúdo Fernando Conrado ministrou a palestra “O que move a sociedade?”. Promovido pela Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), o encontro reuniu líderes do setor supermercadista para analisar como os processos de secularização, cientificismo, individualismo e avanço tecnológico afetam diretamente o comportamento de consumo, a gestão de pessoas e a cultura organizacional das empresas no varejo contemporâneo.
A apresentação destacou um paradoxo central das economias modernas: o alcance de níveis inéditos de eficiência operacional, capacidade logística e conforto material acompanhado pelo crescimento contínuo de diagnósticos de solidão e desgastes emocionais na força de trabalho. Diante de empresários e executivos do Cone Sul, a palestra estabeleceu paralelos entre os fundamentos sociológicos da modernidade e os desafios diários de liderança e retenção de talentos no setor comercial.
Pilares sociológicos da modernidade e o paradoxo da abundância material
A evolução das estruturas sociais contemporâneas baseia-se em quatro eixos estruturantes: a secularização, a expectativa de progresso contínuo, o cientificismo e o individualismo. A substituição progressiva de explicações dogmáticas pelo raciocínio científico reconfigurou a relação da sociedade com o conhecimento e a tomada de decisão corporativa, enquanto a promessa de um futuro perpetuamente superior ao presente estabeleceu novas dinâmicas de competição e investimento.
Embora o avanço tecnológico tenha ampliado a produtividade e a escala de distribuição no comércio global, a autonomia individual gerou pressões inéditas sobre a construção da identidade. A liberdade de escolha em relação a carreiras, estilos de vida e padrões de consumo trouxe, de maneira simétrica, a responsabilidade integral pelo sucesso ou fracasso individual, alimentando ciclos de comparação constante entre os indivíduos.
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Secularização: Transição para o pensamento crítico focado em dados, métricas e racionalidade nas decisões de mercado.
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Cientificismo: Confiança na tecnologia e no domínio técnico para a resolução de problemas operacionais e sociais.
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Individualismo: Autonomia de escolhas acompanhada pelo aumento da exigência sobre a performance pessoal e profissional.
Reconfiguração do trabalho e a construção da identidade corporativa
O papel do trabalho na sociedade ocidental passou por uma transformação conceitual profunda, deixando de ser apenas uma fonte de subsistência para se tornar um dos principais pilares de definição da identidade individual. Quando a carreira e o desempenho profissional passam a centralizar o valor pessoal do indivíduo, flutuações de mercado, reestruturações e crises nos negócios deixam de representar apenas desafios financeiros para assumir o caráter de crises existenciais para executivos e colaboradores.
Esse fenômeno exige que os modelos de gestão adaptem suas abordagens de liderança. O ambiente corporativo moderno demanda ambientes de trabalho que ofereçam clareza de propósito, previsibilidade operacional e suporte ao bem-estar das equipes, reduzindo os impactos da sobrecarga associada à busca contínua por eficiência.
| Dimensão Social | Configuração Tradicional | Configuração Moderna | Impacto na Gestão e Varejo |
| Identidade Profissional | Meio de subsistência e papel social fixo | Vetor de realização e definição pessoal | Alta vulnerabilidade emocional a instabilidades nos negócios |
| Mobilidade Urbana | Vínculos comunitários locais e perenes | Fluidez geográfica e reinvenção de estilo de vida | Fragmentação da lealdade a marcas e novos hábitos de compra |
| Relações de Consumo | Atendimento a necessidades funcionais | Expressão de valores individuais e status | Demanda por marcas com posicionamento e propósito claros |
| Liderança Organizacional | Comando verticalista e focado em metas | Gestão baseada em serviço, pertencimento e ordem | Maior necessidade de engajamento e retenção de talentos |
A ampliação das possibilidades de mobilidade e a ascensão dos ambientes urbanos hiperconectados alteraram a lealdade do consumidor. A exposição contínua a novos padrões de vida por meio de redes digitais elevou a régua de exigência quanto à experiência de compra, exigindo do varejo físico uma constante reinvenção de suas propostas de valor.
Caminhos estratégicos para a liderança e o fortalecimento comunitário
Para mitigar os efeitos fragmentadores do individualismo exacerbado no ambiente empresarial, a palestra apontou como vetores de equilíbrio os conceitos de serviço, pertencimento e ordem. A aplicação de uma liderança orientada ao serviço implica construir modelos de negócios sustentáveis, onde a busca pela rentabilidade financeira convive com o desenvolvimento das equipes e o fortalecimento das comunidades do entorno.
A criação de ambientes corporativos organizados e com diretrizes claras oferece às equipes a sustentação necessária para enfrentar momentos de incerteza econômica. Ao promover o sentimento de pertencimento, as empresas do varejo conseguem reduzir a rotatividade de funcionários e construir relações mais perenes com seus clientes e fornecedores.
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Serviço como cultura: Reorientação da gestão para o atendimento das necessidades reais de colaboradores, clientes e da cadeia de suprimentos.
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Pertencimento organizacional: Construção de ecossistemas corporativos que ofereçam suporte e integração interpessoal sólida.
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Ordem e clareza de processos: Estruturação de fluxos operacionais que confiram estabilidade e segurança diante de oscilações do mercado.
O papel representativo da Expoagas no fortalecimento do varejo regional
Promovida pela Agas, presidida pelo empresário Lindonor Peruzzo Jr., a Expoagas consolida-se como a maior feira do setor supermercadista do Cone Sul e um dos principais encontros de negócios do varejo na América Latina. O evento anual reúne milhares de participantes, entre expositores, distribuidores e varejistas, com o objetivo de movimentar a cadeia de abastecimento e integrar fornecedores de tecnologia, alimentos e serviços.
Fundada em 1971, a associação atua há mais de cinco décadas na qualificação técnica, representação institucional e fomento à inovação para o setor no Rio Grande do Sul. A realização de conferências focadas em comportamento humana e sociologia ao lado de feiras de negócios tradicionais reforça a necessidade do setor em compreender as transformações culturais que antecedem as mudanças de consumo no ponto de venda.
A programação da edição de 2026 reiterou que a transformação do varejo ultrapassa a simples adoção de novas ferramentas de automação ou inteligência artificial. A capacidade de interpretar os anseios psicológicos e sociais do consumidor final constitui o elemento diferenciador para a manutenção da competitividade em mercados altamente consolidados.
Análise Brasil Inovador
A discussão trazida para o encerramento da Expoagas 2026 explicita um ponto de inflexão decisivo para o varejo e para a indústria de bens de consumo: a inovação tecnológica precisa ser acompanhada por uma profunda compreensão das dinâmicas comportamentais e humanas. Em um mercado saturado por ofertas padronizadas e algoritmos de recomendação, o verdadeiro ganho de competitividade e rentabilidade das empresas não residirá apenas na eficiência logística ou no uso de dados, mas na capacidade de construir ecossistemas de trabalho e de consumo fundados em pertencimento, ordem e valor real para a sociedade.
A médio e longo prazo, as organizações que conseguirem alinhar alta performance operacional a uma cultura de liderança humanizada e voltada ao serviço estarão mais preparadas para reter talentos qualificados, blindar suas margens de lucro e construir marcas resilientes às volatilidades econômicas e sociais do mercado global.