CNI defende desburocratização no acesso a fundos de inovação para aumentar competitividade

CNI defende desburocratização no acesso a fundos de inovação para aumentar competitividade industrial

O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), principal mecanismo de fomento à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) no Brasil, projeta disponibilizar mais de R$ 17 bilhões em recursos para o ano de 2026. Embora o volume orçamentário registre patamares recordes, o setor produtivo nacional aponta que gargalos burocráticos severos impedem que o capital irrigue o mercado com a agilidade necessária.

Em seu documento estratégico Construindo o Brasil 2050 – A Indústria na Agenda dos Presidenciáveis, entregue aos pré-candidatos à Presidência da República, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresenta um diagnóstico detalhado do ecossistema de inovação. A entidade defende a manutenção permanente desses investimentos, mas exige uma simplificação regulatória radical para evitar a perda de dinamismo e inserção global das empresas brasileiras.

Excesso de exigências documentais e impacto nas micro e pequenas empresas

O diagnóstico da confederação revela que as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) concentram as maiores barreiras de acesso ao crédito para inovação, sobretudo devido à exigência anacrônica de altas garantias reais em projetos cuja essência se baseia em ativos intangíveis e de alto risco. Segundo os dados consolidados da CNI, o excesso de burocracia é apontado por 36% dos empresários como o maior entrave no uso de instrumentos públicos de fomento.

A assimetria regional também se destaca no mapeamento: a região Nordeste é a mais afetada por essa percepção, com o impacto relatado por 48% dos industriais, enquanto a região Sudeste apresenta o menor índice, com 32%. Além disso, um dado alarmante aponta que 42% dos empresários brasileiros sequer tentaram acessar as linhas públicas de incentivo, índice que atinge 45% no Nordeste e 44% no Sudeste.

A complexidade dos editais e o risco regulatório são acompanhados por outros fatores impeditivos apontados pelo setor produtivo:

  • Tempo de análise de processos: O intervalo entre a submissão de um projeto e a liberação efetiva do dinheiro pode atingir até 18 meses, prazo considerado letal e incompatível com o ciclo de evolução tecnológica.

  • Insegurança jurídica: O risco de glosas e a aplicação de penalidades futuras atingem 5% das menções dos industriais.

  • Complexidade normativa: A falta de clareza e entendimento sobre as regras estipuladas nos programas governamentais é citada por 5% das lideranças.

  • Baixa previsibilidade: A ausência de cronogramas estáveis afeta diretamente 3% das decisões corporativas de investimento.

Propostas para a modernização das agências de fomento

Para reverter o atual cenário de autofinanciamento forçado — que limita a escala de projetos de grande impacto econômico —, a CNI propõe uma modernização operacional profunda em instituições de fomento como o BNDES, a FINEP e agências estaduais. A principal recomendação consiste na substituição da exigência de patrimônio físico por fundos garantidores de crédito e na transição dos editais tradicionais para modelos de fluxo contínuo.

A entidade defende ainda a flexibilização da Lei do Bem. Atualmente restrita a corporações enquadradas no regime de Lucro Real — o que exclui mais de 90% das indústrias nacionais —, a proposta visa estender os benefícios fiscais para outros regimes tributários e permitir a compensação de saldos em anos de prejuízo fiscal, apoiando startups e deep techs durante o período crítico conhecido como o “vale da morte tecnológico”.

Eixos prioritários para a consolidação de uma potência inovadora

O documento Construindo o Brasil 2050 estabelece diretrizes estruturantes divididas em eixos estratégicos para orientar as políticas públicas de competitividade industrial:

Eixo Estratégico Diretrizes de Ação e Metas de Longo Prazo
Estratégia de Estado Institucionalização de uma agenda de longo prazo (15 a 20 anos) com foco em bioeconomia, transição energética e digitalização.
Poder de Compra Estatal Indução de inovação via compras públicas por meio de Encomendas Tecnológicas (ETECs) e Contratos Públicos de Soluções Inovadoras (CPSI).
Descentralização Regional Criação de fundos regionais financiados por royalties de recursos naturais para subsidiar vocações tecnológicas locais.
Formação de Capital Humano Fortalecimento do Programa Conhecimento Brasil para repatriação de cientistas e facilitação do acesso de MPEs ao programa Inova Talentos.
Infraestrutura Digital Universalização da tecnologia 5G e atração de investimentos globais para a construção de data centers sustentáveis.

Brasil Inovador

A cobrança da CNI por uma desburocratização radical nas linhas de financiamento expõe uma das maiores contradições do ambiente de negócios nacional: a coexistência de orçamentos recordes, como os R$ 17 bilhões do FNDCT, com processos de liberação travados que asfixiam o setor produtivo, uma realidade acompanhada de perto pelo Brasil Inovador.

Para o Brasil Inovador, a grande disrupção contida nas propostas da confederação reside na urgência de se migrar de uma cultura de auditoria punitiva e focada em garantias físicas para uma cultura de gestão de risco tecnológico e avaliação de mérito intangível. Em uma economia globalizada onde a inteligência artificial, a bioindústria e os novos materiais avançam em ciclos de meses, manter prazos de análise que chegam a um ano e meio é o equivalente a decretar a obsolescência de um projeto antes mesmo de seu nascimento.

Sob a perspectiva tática e de atração de capital de risco (venture capital), a reformulação da Lei do Bem e a ampliação de fundos garantidores para amparar as Micro e Pequenas Empresas (MPEs) são medidas vitais para a sobrevivência do tecido industrial brasileiro. O verdadeiro ganho de produtividade do país não virá apenas das grandes corporações que já possuem musculatura para autofinanciamento, mas sim da capacidade de conectar pequenas indústrias regionais e startups de base tecnológica profunda às cadeias globais de valor. O desafio crucial para o próximo ciclo de governança será unificar o ecossistema por meio de canais digitais integrados e de “balcões únicos”, eliminando a assimetria que prejudica especialmente o Nordeste brasileiro. Ao transformar o fomento público em uma ferramenta ágil, previsível e descentralizada, o ambiente institucional pavimenta o caminho para converter a riqueza natural do país em soberania tecnológica, lucro operacional e liderança econômica sustentável no cenário internacional.

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