O Observatório Softex, unidade de pesquisa e inteligência estratégica da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro, lançou em Brasília o segundo caderno do estudo TICs 2026, com dados detalhados sobre a capacidade de inovação e os fatores estruturais da Indústria de Software e Serviços de TIC (ISSTIC) no Brasil. O levantamento aponta que, embora o país registre um crescimento expressivo na formação de profissionais, na expansão da base empresarial e na adoção de tecnologias emergentes como Inteligência Artificial e computação em nuvem, o setor ainda enfrenta entraves severos em relação à qualidade do ensino, ao volume de investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e à maturidade do ecossistema de startups.
A publicação analisa vertentes determinantes para o futuro da economia digital brasileira, incluindo o mercado de trabalho, a qualificação profissional e os principais obstáculos para a competitividade internacional do setor de tecnologia. A análise abrange dados consolidados até os anos recentes e indica caminhos críticos para que o ecossistema nacional ganhe escala e autonomia produtiva.
Formação em TIC avança com desafios de qualidade
A formação acadêmica em tecnologia da informação segue no centro da estratégia de desenvolvimento do setor. Em 2024, o Brasil contabilizou 4.190 cursos superiores na área de TI, o que corresponde a 9,2% do total de cursos do ensino superior no país. A distribuição geográfica das vagas reflete a desigualdade regional da infraestrutura acadêmica, com a Região Sudeste concentrando 50% de toda a oferta nacional e o estado de São Paulo respondendo por 30,57%.
O modelo de Ensino a Distância (EaD) consolidou-se como o principal vetor de democratização do acesso às carreiras tecnológicas, representando 87,3% das vagas disponíveis e viabilizando a graduação de 109.875 profissionais, marca que representa uma expansão de 30,6% em relação aos registros do ano anterior. Contudo, o avanço quantitativo expõe fragilidades estruturais no ensino. Cerca de 71% dos cursos avaliados pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) apresentam conceitos intermediários ou baixos (notas 2 ou 3), enquanto a taxa de evasão escolar no EaD oferecido pela rede privada ultrapassa os 50%.
As instituições de ensino e o mercado têm direcionado esforços para áreas tecnológicas altamente estratégicas. O volume de alunos matriculados em cursos voltados à Inteligência Artificial cresceu de 396 para 3.250 no intervalo de 2022 a 2024. Em ritmo ainda mais acelerado, as vagas voltadas para Defesa Cibernética expandiram-se de 4.785 em 2019 para 113.080 em 2024. Segundo a coordenação de Inteligência e Design de Soluções da instituição realizadora, a sustentabilidade dessa expansão depende diretamente de alinhar a oferta acadêmica com a qualidade técnica exigida pelo mercado de trabalho.
| Indicador de Formação | Dado Registrado | Detalhe do Estudo |
| Total de Cursos de TI | 4.190 | Representa 9,2% da oferta de ensino superior no Brasil |
| Participação do Sudeste | 50% da oferta | São Paulo responde por 30,57% do total |
| Participação do EaD | 87,3% das vagas | Formou 109.875 profissionais (alta de 30,6%) |
| Qualidade no ENADE | 71% dos cursos | Avaliados com conceitos 2 ou 3 |
| Crescimento em IA | 3.250 matrículas | Salto expressivo a partir de 396 matrículas em 2022 |
| Defesa Cibernética | 113.080 vagas | Crescimento expressivo em relação às 4.785 de 2019 |
Expansão corporativa e remuneração no mercado digital
A base empresarial da Indústria de Software e Serviços de TIC registrou crescimento robusto de 21% entre os anos de 2023 e 2025, atingindo a marca de 627.124 empresas ativas. A adoção de tecnologias disruptivas acompanha essa expansão. A presença de recursos de Inteligência Artificial nos processos produtivos gerais das companhias subiu de 12,94% para 17,46%, ao passo que no segmento específico de Informação e Comunicação esse índice saltou de 38,24% para 48,88%. A migração para a computação em nuvem também se consolidou, abrangendo 55,64% da média das empresas do país e 74,71% das organizações do setor de tecnologia.
Apesar do ritmo de modernização, as corporações apontam gargalos relevantes para a inovação. O custo elevado para aquisição de tecnologias avançadas é citado por 78,6% dos empresários como a principal barreira, enquanto 54,2% das empresas destacam a escassez crônica de profissionais qualificados como fator inibidor para o crescimento.
No âmbito do emprego formal, o setor computava 1,32 milhão de trabalhadores contratados, o que representa 2,20% do total de postos de trabalho formais existentes no Brasil. O levantamento destaca a competitividade salarial do segmento: a remuneração média atingiu R$ 8.253,55, valor 64,28% superior à média paga pelo setor imobiliário e de serviços em geral.
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Elevado custo tecnológico: Citado por 78,6% das empresas como obstáculo central aos projetos de inovação.
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Gargalo de talentos: A escassez de mão de obra especializada afeta o fluxo de expansão de 54,2% das corporações.
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Valores competitivos: Salários da área superam amplamente a média nacional do setor terciário.
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Nuvem em alta: Aderência maciça de 74,71% das companhias de TIC aos ecossistemas em nuvem.
Gargalos estruturais em pesquisa e investimentos de risco
A intensidade dos investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento no Brasil ainda permanece aquém das metas praticadas pelos principais centros de inovação globais. O país destina entre 1,3% e 1,7% do seu Produto Interno Bruto (PIB) para ciência e tecnologia, patamar distante de nações líderes como Israel, que investe 6,35% do PIB, e a Coreia do Sul, que dedica 5,32% da sua riqueza ao setor.
Na indústria de software e serviços de TIC, os aportes em P&D evoluíram de R$ 1,9 bilhão para R$ 3,6 bilhões em termos absolutos dentro das pesquisas históricas de acompanhamento, enquanto os investimentos em atividades científicas e serviços técnicos especializados ultrapassaram a marca de R$ 10 bilhões. O ecossistema acadêmico-científico conta com 583 Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) mapeadas, das quais 57,1% atuam diretamente na área de Tecnologia e Comunicação. No âmbito da propriedade intelectual, o registro de programas de computador junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial demonstrou forte aceleração, passando de 2.099 concessões em 2020 para 7.232 em 2025. Em contrapartida, os depósitos formais de patentes na área de TIC sofreram um recuo de 20,4% no mesmo período.
O ecossistema de empreendedorismo inovador lida com a escassez de capital e desafios na consolidação das empresas. O Brasil reúne 3.923 startups estritamente de base tecnológica dentro de um universo total de 22.869 startups cadastradas. Desse grupo tecnológico, 67% encontram-se nas etapas iniciais de validação ou tração, apenas 3,3% conseguiram atingir o estágio avançado de escala (scale-up) e 50,1% não declararam qualquer faturamento. A arquitetura de negócios predominantemente adotada é o modelo B2B, presente em 70% das startups, com forte predominância da entrega de softwares como serviço (SaaS), presente em 64,4% das soluções oferecidas.
O volume global de aportes via fundos de Venture Capital no país sofreu expressiva retração, caindo do ápice de US$ 11,2 bilhões em 2021 para US$ 4,5 bilhões em 2025. Essa desaceleração fez com que o México superasse o Brasil em volume absoluto de capital de risco atraído no setor de tecnologia pela primeira vez em 15 anos. A concentração geográfica também impõe desafios para o crescimento homogêneo do país: a Região Sudeste abriga 40,2% de todas as startups de tecnologia do Brasil, com São Paulo liderando isoladamente ao concentrar 24,8% do ecossistema, seguido pelo estado de Santa Catarina, na Região Sul, que reúne 13,3% das empresas. A íntegra do relatório pode ser consultada no portal do Observatório Softex.
Análise Brasil Inovador
O panorama detalhado do setor de tecnologia brasileiro explicupa uma assimetria preocupante entre a expansão quantitativa e o amadurecimento estrutural da economia de inovação no país. Embora o salto na oferta de cursos e a adoção acelerada de inteligência artificial demonstrem forte dinamismo do lado da demanda e do interesse produtivo, a alta taxa de evasão e a nota intermediária de grande parte dos formandos expõem o risco de uma qualificação rasa, incapaz de suprir com excelência os quadros que a economia digital exige.
No plano dos investimentos de risco, a queda no capital atraído em comparação com outros mercados latino-americanos e a baixa percentagem de startups que atingem a fase de escala evidenciam que o gargalo nacional migrou do surgimento de novas ideias para a capacidade de sustentação e expansão global dos negócios. A médio e longo prazo, a competitividade do ecossistema brasileiro dependerá criticamente da capacidade de descentralizar o capital, aumentar os aportes diretos em P&D e transformar o volume de registros intelectuais em patentes ativas de alto valor agregado.