Painel do GovTech Summit aborda o desafio das startups para acelerar a inovação no governo

Painel do GovTech Summit aborda o desafio das startups para acelerar a inovação no governo

A transformação digital e o impacto social no ecossistema governamental foram os temas do painel “Na prática: startups que já mudaram o jogo no setor público”, realizado durante a primeira tarde de programação do GovTech Summit 2026. Mediado por Fernanda Fuscaldo, cofundadora do GovTech Lab, o debate reuniu os CEOs de três startups de vanguarda no cenário nacional: Vinícius Garcia (CodeScript), Alexandre Estrela (Colab) e Pedro Filizola (Água Camelo). O evento acontece até amanhã (3), no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre.

Especializada em rastreamento, telemetria veicular e desenvolvimento sob medida, a gaúcha CodeScript foi destaque com sua trajetória de 11 anos de mercado. O CEO da empresa, Vinícius Garcia, relatou a guinada estratégica da organização há dois anos, quando decidiram se tornar protagonistas ativos na comunidade. Hoje integrada à governança do ecossistema local Vértice, em Passo Fundo, desenvolveu plataformas que conectam os atores da inovação e centralizam informações turísticas e serviços públicos locais. “A gente acredita que a inovação não acontece em ilhas, e, sim, em rede. Se nós não tomarmos a iniciativa de fazer essas coisas acontecerem pelo ecossistema da cidade, elas tendem a ser muito mais morosas”, defendeu Vinícius.

Uma das maiores referências em GovTech no Brasil, o Colab atua desde 2013 focando no empoderamento do cidadão para zeladoria e participação urbana. O diretor de Negócios e Projetos, Alexandre Estrela, relembrou que, no início, prefeitos tinham pânico da ferramenta por acharem que ela traria problemas em vez de soluções. Hoje, estruturada como uma plataforma no-code, ela permite que agentes públicos criem serviços de ponta a ponta e integrem multicanais, como aplicativos e o WhatsApp.

Entre os casos de impacto real, Estrela destacou o uso do app por toda a Guarda Municipal de Niterói (RJ) para emissão de multas, o cadastramento assistencial de 20 mil famílias na Baixada Fluminense em apenas uma semana e a otimização da rede de ensino público. “Quando você digitaliza o serviço de pré-matrícula, por exemplo, você entende onde os pais moram e onde eles estão pedindo escola para os filhos. Isso permite à prefeitura identificar bolsões de pobreza e reorganizar a educação com base em dados reais”, explicou o executivo.

Nascida no ambiente universitário de design, a Água Camelo assumiu a missão de levar água tratada a comunidades vulneráveis (quilombolas, ribeirinhas, indígenas e favelas), um problema que atinge 35 milhões de brasileiros. O diretor de negócios Pedro Filizola trouxe dados impactantes do censo escolar: mais de 6.300 escolas públicas no Brasil não possuem acesso a água potável, afetando 1,6 milhão de alunos.

A startup já atua em mais de 70 instituições de ensino, beneficiando 30 mil estudantes por meio de uma engenharia social inovadora que capta recursos com o setor privado, realiza cofinanciamentos e faz parcerias com as secretarias públicas para a implementação e autorização das tecnologias. Filizola também detalhou a atuação emergencial em comitês de crise humanitária, como o apoio prestado à Defesa Civil e às Forças Armadas nas catástrofes do Rio Grande do Sul em 2024.

Apesar dos cases de sucesso, o painel refletiu sobre questões importantes relacionadas às estruturas tradicionais de compras governamentais. O foco excessivo na menor tarifa foi apontado como o principal inimigo do desenvolvimento tecnológico. “Os processos de contratação hoje são muito pautados em preço, e isso é antagônico à inovação”, disparou Filizola.

Os empresários avaliaram o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI), mecanismo trazido pelo Marco Legal das Startups. Embora o considerem um avanço formidável, elencaram falhas crônicas na sua execução prática, como a quantidade excessiva de editais lançados com escopos de pouca clareza técnica, a incapacidade de reconhecimento de soluções prontas e o “engessamento” e o medo do controle.

Foto: Cassius Souza

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