O jardim da inovação: especialistas debatem os avanços e os gargalos da tríplice hélice no sul do país

O jardim da inovação: especialistas debatem os avanços e os gargalos da tríplice hélice no sul do país

A convergência estratégica entre Universidades, Iniciativa Privada e o Poder Público esteve no centro dos debates do painel “A tríplice hélice em ação: quando ciência, setor privado e Estado convergem”, realizado na tarde desta terça-feira no GovTech Summit 2026, em Porto Alegre. Conduzido pela coordenadora do Future GovHub, Daniela Eckert, o painel reuniu referências do ecossistema de inovação do Sul do Brasil: Tony Chierighini, diretor executivo do Celta/Fundação Certi; Dafne Agarralua, especialista de Projetos de Inovação no Sebrae RS; e Rafael Roesler, diretor técnico-científico da Fapergs.

Os painelistas resgataram o histórico de políticas públicas integradas, detalharam programas de fomento de alto impacto e discutiram de forma realista a principal lacuna que o ecossistema enfrenta atualmente, o “vale da morte”, que separa o nascimento das startups de seu efetivo escalonamento industrial.

Dafne Agarralua propôs uma ampliação do conceito do painel, defendendo a transição da tríplice hélice para a quádrupla hélice, incluindo a sociedade civil como destinatária final e elo central das transformações. “Fazemos inovação, mas para quem? Para quem queremos entregar isso? No Sebrae, nossa missão é democratizar a inovação, ajudando desde startups de base tecnológica até pequenos negócios tradicionais como padarias e oficinas. Através do programa de ativação de ecossistemas locais, oportunizamos aos municípios as ferramentas para impulsionar seus territórios”, destacou.

O pioneirismo de Santa Catarina foi resgatado por Tony Chierighini, que relembrou o papel da Fundação Certi na criação do Celta, a primeira incubadora de empresas de base tecnológica do Brasil, ainda nos anos 1980. Chierighini detalhou que a iniciativa nasceu para frear a “exportação de mão de obra qualificada” das universidades locais. “A universidade formava excelentes engenheiros, mas eles saíam de lá. Existia um vale da morte para sair da academia e chegar ao setor produtivo. Juntamos universidade, empresários e o poder público para criar a incubadora e fazer nascer os ‘filhotes’. Como Florianópolis é uma ilha e não comporta indústrias pesadas, expandimos o projeto para municípios vizinhos criando o CONTECC. Um exemplo disso é a Pedra Branca, em Palhoça, que em 2006 era uma fazenda e hoje é um parque de inovação com mais de 3 mil CNPJs ativos, liderado pela iniciativa privada”, celebrou.

Chierighini também compartilhou o sucesso do programa SINAPSE (que posteriormente inspirou o programa nacional Centelha), uma chamada massiva de ideias inovadoras operada conjuntamente com a FAPESC e a FINEP, que distribui recursos de subvenção e gerou uma verdadeira “gamificação” entre as universidades catarinenses. Ele ainda destacou a Lei de Inovação de Florianópolis, cujo fundo municipal de R$ 4 milhões permite que o recurso de fomento seja abatido diretamente de impostos (como ISS e IPTU) das empresas madrinhas, repassando o capital diretamente para a startup de forma desburocratizada e sem o risco de intervenções jurídicas do Ministério Público.

Representando o braço de financiamento do Estado, Rafael Roesler, diretor técnico-científico da Fapergs,trouxe uma metáfora orgânica para explicar a atuação de uma Fundação de Amparo à Pesquisa (FAP). “O ecossistema de ciência, tecnologia e inovação de um estado é como um jardim. Ele tem que ter uma grama bem cuidada que dá suporte a todo o resto, mas tem a orquídea aqui e o cacto ali. Cada planta exige uma quantidade diferente de água, e o papel da agência de fomento é cuidar de todo o jardim, desde a bolsa de iniciação científica para a garotada na universidade até a subvenção direta a produtos tecnológicos nas indústrias e startups. Se qualquer elo falhar, o conhecimento não se transforma em benefício para a sociedade”, ponderou.

Roesler destacou a profunda revolução legislativa ocorrida em meados dos anos 2000 no Brasil, quando os governos foram autorizados a destinar dinheiro público por subvenção econômica direta para empresas privadas com fins lucrativos. Entre os programas de destaque da Fapergs, ele elencou o Doutor Empreendedor, desenvolvido em parceria com o Sebrae, que convida recém-doutores (em sua maioria mulheres cientistas) a transformarem suas teses acadêmicas em startups de base tecnológica de alto valor agregado. O programa já gerou 107 empresas de base tecnológica no Rio Grande do Sul e duas delas foram as grandes vencedoras globais do South Summit em Porto Alegre, ambas na área de biotecnologia voltada para a saúde humana.

Outro destaque trazido por ele foi o programa Cientista na Indústria, operado em cofinanciamento paritário com a Federação das Indústrias do Estado (Fiergs/IEL), no qual o pesquisador desenvolve P&D dentro de uma grande indústria, sob a coordenação de um funcionário do próprio setor privado, rompendo com o modelo tradicional de coordenação puramente acadêmica.

Foto: Cassius Souza

+
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.