Às vezes, ele está no silêncio. No olhar que evita. Na resposta mais curta do que o habitual. E é aí que a liderança começa — ou não.
Outro dia, fui convidada para fazer uma apresentação numa empresa. Quando entrei na sala, a equipe e a liderança já me aguardavam, numa formalidade incrível. Observando-os, algo me chamou atenção. Não havia conflito declarado, nenhuma discussão evidente. Os relatos transcorriam formais. Mas algo estava acontecendo em nível mais sutil. Uma tensão no ar. Uma desconexão difícil de explicar, mas fácil de sentir. Fiquei me perguntando: será que o líder também está percebendo?
Um líder pode ver o ambiente e seguir adiante. Afinal, “está tudo funcionando”, os relatórios estão corretos. Mas um líder que enxerga não ignora esse tipo de sinal. E aqui está a diferença que, para mim, muda completamente a qualidade da liderança: VER é fisiológico, biológico, eu vejo muitos objetos a cada hora. ENXERGAR é um ato de consciência, de entendimento, de percepção e disponibilidade interna. É quando algo não dito chama a nossa atenção. É a fala do silêncio.
Diante de uma situação assim, o líder sempre tem uma escolha.
Pode agir no nível mais imediato — ajustar tarefas, reorganizar demandas, manter o foco na entrega. Dar um elogio superficial para alguém. Muitas vezes, isso resolve o que está na superfície. Mas quase nunca resolve o que está na origem.
Lembro de uma situação em que, ao invés de intervir diretamente na tarefa, o líder simplesmente chamou uma das pessoas para uma conversa mais aberta. Não para cobrar, mas para compreender. A pergunta não foi “o que está acontecendo com o trabalho?”. Foi: “tem algo que eu não estou enxergando aqui? Você pode me ajudar a enxergar?”
Essa pergunta muda o lugar da liderança. Porque, naquele momento, ele deixou de atuar apenas como gestor e passou a ocupar o seu espaço: o de alguém que sabe que não tem à sua disposição apenas “mão de obra”, para lhe entregar resultados. E isso transforma a relação, estabelece conexões.
Tenho observado que muitos líderes altamente competentes permanecem no campo “do comportamento de gestor”. Organizam processos, acompanham indicadores, direcionam entregas. São supereficientes.
Mas liderança começa quando existe disposição para ir além do que é visível. Quando sai do comportamental e vai para a ATITUDE. Quando o LÍDER decide não apenas ver o grupo, mas enxergar as pessoas que compõem a EQUIPE. E isso não é algo intuitivo para todos. É uma construção diária.
Aqui entra uma dimensão que, para mim, faz toda a diferença: a inteligência espiritual. Não no sentido religioso. Não como crença.
Mas como uma capacidade humana de perceber SIGNIFICADO, de questionar o que parece óbvio e de acessar aquilo que não está explícito — como trazem Danah Zohar e Ian Marshall no livro “QS Inteligência Espiritual – O “Q” que faz a diferença”.
Enquanto a inteligência intelectual (QI) organiza o raciocínio; e a emocional (QE) nos ajuda a lidar com sentimentos, a inteligência espiritual (QS) amplia a percepção. Ela nos tira do automático.
Ela nos permite, por exemplo, perceber que um bom resultado pode esconder um desgaste silencioso. Que uma resistência pode não ser oposição, mas proteção. Que uma queda de performance pode ter origem em algo que não é técnico. Sem essa dimensão, o líder reage ao que aparece. Com ela, o líder começa a compreender o que está por trás. Começa a enxergar que todo resultado quantitativo necessita ter sido construído em cima do qualitativo.
E isso, hoje, se tornou ainda mais necessário. Vivemos um tempo de aceleração constante, onde tudo nos convida à rapidez — decisões rápidas, respostas rápidas, resultados rápidos. Esse movimento aparece com força nas discussões atuais sobre tecnologia e futuro do trabalho, inclusive foi super trazido no SXSW 2026, em Austin/Texas, importante polo de tecnologia e inovação, além da música.
Mas, no meio dessa velocidade, algo começa a ficar evidente: nem tudo pode ser resolvido na pressa. A qualquer custo, pois quem faz as ENTREGAS ainda são PESSOAS. BUSINESS IS PEOPLE!! Porque enxergar o outro não é imediato. Exige que o líder saia, por alguns momentos, do papel de quem apenas conduz — para ocupar o lugar de quem percebe, sente, que está lado-a-lado.
E é aqui que, para mim, existe uma linha muito clara: um líder pode ser excelente na gestão e ainda assim não desenvolver pessoas. Porque desenvolver pessoas exige enxergar. Exige reconhecer potencial antes dele aparecer em resultado. Exige identificar limites que não estão nomeados. Exige sustentar conversas que nem sempre são confortáveis, mas são necessárias. As tais de “conversas difíceis”, mas que são elas que trazem as situações para uma convergência.
No fundo, liderar é isso. Não é sobre centralizar. É sobre formar outros líderes. E ninguém se desenvolve onde não é enxergado de verdade.
Talvez por isso a ampliação da visão, ampliação de consciência seja, ainda, um ativo invisível e não valorizado dentro das empresas. Ela não aparece no curto prazo. Mas, com o tempo, se revela na maturidade das equipes, na qualidade das relações e na forma como as pessoas passam a se posicionar com confiança.
No final, a pergunta que fica, para mim, é simples — e ao mesmo tempo profunda: no meio das reuniões rotineiras de sua empresa, onde todos chegam apressados, e já olhando os relógios para correrem para a próxima reunião na sala ao lado, VOCÊ, Líder, está apenas vendo planilhas de números ou VOCÊ está, de fato, ENXERGANDO quem está lhe proporcionando informações e bons resultados que até poderão lhe fazer receber títulos em sua categoria no seu segmento de mercado, ou receber bônus gorduchos no seu envelope de final de ano??
Maria Elena Pereira Johannpeter
Especialista em desenvolvimento humano e ampliação de consciências para o sucesso pessoal e profissional. Palestrante, consultora e fundadora da ONG Parceiros Voluntários, com atuação nacional há mais de 25 anos.