ASCO 2026 destaca nova droga que praticamente dobra sobrevida no câncer de pâncreas metastático

ASCO 2026 destaca nova droga que praticamente dobra sobrevida no câncer de pâncreas metastático

Apresentado como um dos principais destaques do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), que acontece até 2 de junho em Chicago, um estudo internacional de fase 3 mostrou resultados animadores para pacientes com câncer de pâncreas avançado. A pesquisa revelou que o medicamento experimental daraxonrasib praticamente dobrou o tempo de vida de pacientes que já haviam passado por tratamento anterior. Além disso, a nova terapia conseguiu controlar a doença por mais tempo, reduzir os tumores com maior frequência e provocar menos efeitos colaterais graves do que a quimioterapia atualmente utilizada nesses casos.

O câncer de pâncreas permanece entre os tumores com maior taxa de mortalidade, especialmente quando há metástase. Apesar dos avanços observados nas últimas décadas em diferentes tipos de câncer, os pacientes diagnosticados com adenocarcinoma ductal pancreático metastático ainda convivem com um cenário de poucas opções terapêuticas e prognóstico reservado. Por isso, os resultados apresentados durante o Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026) despertaram grande expectativa entre especialistas de todo o mundo. O evento ocorre até o dia 2 de junho em Chicago, nos Estados Unidos.

O estudo internacional de fase 3 RASolute 302 avaliou o medicamento experimental daraxonrasib em pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam recebido tratamento prévio. Os resultados indicaram um ganho de sobrevida raramente observado nessa doença. Os pacientes tratados com a nova droga alcançaram uma sobrevida global mediana de 13,2 meses, praticamente o dobro dos 6,7 meses observados entre aqueles que receberam quimioterapia convencional após a progressão da doença.

O trabalho incluiu 500 participantes recrutados na América do Norte, Europa e Ásia. Todos apresentavam adenocarcinoma ductal pancreático metastático e haviam recebido tratamento anterior. Os pacientes foram randomizados para receber daraxonrasib ou quimioterapia, permitindo uma comparação direta entre as abordagens terapêuticas.

Além do impacto sobre a sobrevida global, o estudo demonstrou melhora consistente em outros indicadores importantes. A sobrevida livre de progressão alcançou 7,2 meses entre os pacientes tratados com o inibidor de RAS, enquanto no grupo submetido à quimioterapia esse período foi de 3,6 meses. A taxa de resposta objetiva, utilizada para medir a redução tumoral provocada pelo tratamento, chegou a 31,6% com o daraxonrasib, quase três vezes superior aos 11,2% observados com a quimioterapia.

Outro aspecto relevante foi o perfil de segurança. Eventos adversos graves ocorreram em 43,6% dos pacientes tratados com a nova droga, percentual inferior aos 57,5% registrados no grupo controle. A necessidade de interrupção do tratamento por toxicidade também foi significativamente menor, ocorrendo em apenas 1,2% dos pacientes que receberam daraxonrasib, contra 11,2% daqueles submetidos à quimioterapia.

O resultado ganha ainda mais relevância diante das características biológicas do câncer de pâncreas. Mais de 90% dos adenocarcinomas pancreáticos apresentam alterações no gene KRAS, uma das mutações mais frequentes e estudadas da oncologia moderna. Durante décadas, cientistas buscaram formas de bloquear essa proteína sem sucesso clínico consistente, levando muitos pesquisadores a classificá-la como um alvo praticamente inalcançável.

De acordo com Felipe José Fernández Coimbra, cirurgião oncológico, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center, o daraxonrasib representa uma mudança importante justamente por conseguir interferir de forma efetiva nesse mecanismo molecular.

De acordo com o especialista, a proteína KRAS alterada funciona como um dos principais motores do crescimento tumoral. O medicamento atua neutralizando sua capacidade de transmitir sinais que estimulam a proliferação das células cancerosas. Coimbra compara esse processo a uma fechadura cujo mecanismo interno foi desgastado. A chave ainda consegue entrar, mas já não encontra os pontos necessários para se apoiar e girar, impedindo que o sistema seja acionado.

O oncologista destaca que o impacto dos resultados se torna ainda mais expressivo quando se observa o perfil dos pacientes incluídos no estudo. Não eram pessoas em tratamento inicial da doença, mas indivíduos com câncer metastático que já haviam recebido quimioterapia e apresentavam progressão tumoral. Segundo ele, observar resultados que superam aqueles tradicionalmente alcançados nas primeiras linhas de tratamento é algo incomum e ajuda a dimensionar a importância dos dados apresentados na ASCO.

O daraxonrasib pertence a uma nova geração de terapias conhecidas como inibidores multisseletivos de RAS(ON). Diferentemente das primeiras drogas desenvolvidas para bloquear variantes específicas da proteína, a nova molécula apresenta atividade contra múltiplas alterações da família RAS, ampliando potencialmente o número de pacientes que podem se beneficiar do tratamento.

Essa característica pode representar uma vantagem importante em um cenário no qual o câncer de pâncreas continua associado a altas taxas de mortalidade. Embora represente cerca de 3% de todos os diagnósticos de câncer, a doença responde por uma parcela desproporcional das mortes relacionadas ao câncer. A maioria dos pacientes recebe o diagnóstico já em estágios avançados e metastáticos, quando as possibilidades de cura são bastante limitadas.

Para Coimbra, os resultados apresentados em Chicago reforçam que a oncologia está entrando em uma nova fase no enfrentamento dos tumores impulsionados por mutações da família RAS. Durante décadas, pesquisadores identificaram a importância biológica dessas alterações, mas encontraram enormes dificuldades para transformá-las em alvos terapêuticos efetivos. Os dados do RASolute 302 mostram que essa barreira começa a ser superada.

Apesar do entusiasmo, o especialista ressalta que os resultados devem ser interpretados dentro do contexto adequado. O estudo foi conduzido em pacientes com doença metastática previamente tratada e ainda não existem dados capazes de demonstrar qual seria o desempenho da droga em estágios mais precoces da doença ou quando utilizada como terapia de primeira linha.

As próximas etapas da pesquisa deverão justamente responder a essas questões. Estudos futuros deverão avaliar o uso do medicamento em combinação com imunoterapia, em linhas mais precoces de tratamento e em outros tumores frequentemente associados a alterações da família RAS, como o câncer colorretal e o câncer de pulmão de não pequenas células.

Coimbra destaca ainda que o daraxonrasib não deve ser interpretado como uma cura para o câncer de pâncreas. Segundo ele, embora os resultados sejam extremamente relevantes, o principal significado do estudo está na abertura de uma nova frente terapêutica para uma doença que historicamente acumulou poucas inovações capazes de alterar significativamente o prognóstico dos pacientes.

O especialista também recomenda cautela em relação às expectativas sobre acesso imediato ao medicamento. Com experiência prévia em programas de acesso expandido a terapias inovadoras antes de sua aprovação regulatória no Brasil, ele considera provável que a nova droga avance rapidamente nos processos de avaliação internacional. No entanto, ressalta que ainda não há definições sobre sua disponibilidade para pacientes brasileiros.

Ainda segundo Coimbra, a expectativa é que o medicamento chegue futuramente ao país e possa beneficiar pacientes com câncer de pâncreas, mas o momento atual ainda é de análise regulatória e amadurecimento das evidências clínicas. Por essa razão, ele não considera adequado que pacientes tentem buscar importações individuais ou alternativas de acesso fora dos protocolos de pesquisa.

Sobre Felipe Coimbra – Médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal, Felipe José Fernández Coimbra se graduou em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020. Faz parte do comitê científico internacional da International Hepato Pancreato Biliary Association (IHPBA) e é representante internacional da Society of Surgical Oncology Americana (SSO).

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