O que uma enciclopédia de 1975 me ensinou sobre inovação

Entre memórias de infância, enciclopédias antigas e reflexões sobre capitalismo, tecnologia e criatividade humana, esta primeira coluna que escrevo em português explora uma pergunta provocadora: e se a verdadeira inovação não estivesse apenas no futuro, mas também na capacidade de voltar a olhar para trás? Uma reflexão autoral sobre escrita, humanidade e o poder natural de inovar.

Há uma semana fui convidada a fazer parte do Brasil Inovador com esta coluna. Desde então, a questão sobre o que escrever no meu primeiro texto aqui tem ficado dando voltas na minha cabeça. Se o processo criativo de quem escreve é familiar para você, saberá então que tudo começa com uma semente plantada no pensamento que, como na agricultura, se deixa debaixo da terra, na escuridão — neste caso, no subconsciente — amadurecendo até sair à luz e começar a tomar alguma forma.

Assim mesmo, a semente foi plantada na minha cabeça no momento em que tive uma reunião virtual com Aldo Cargnelutti, fundador do Brasil Inovador e colega jornalista: ele sentado em São Paulo e eu em Bogotá, com duas horas de diferença no fuso horário. Mas a semente de escrever profissionalmente em português foi plantada na minha cabeça cinco anos atrás, quando comecei a estudar português. Portanto, estar aqui nesta noite trazendo minha primeira coluna jornalística em português para vocês é mais significativo do que pode parecer do outro lado da tela.

Escrever como forma de se expressar, compartilhar informação e criar conhecimento é, em si mesmo, inovar. O jornalismo e a inovação compartilham um princípio: o da novidade. O que é novo, poderíamos dizer na linguagem jornalística, é aquilo que é noticioso. Talvez escrever notícias sobre inovação seja uma redundância sobre a própria novidade.

Voltando ao processo criativo, foi assim que deixei essa questão trabalhar no meu subconsciente durante uma semana: o que vou escrever na minha primeira coluna no Brasil Inovador, que é, além disso, minha primeira publicação jornalística em português? As ideias foram aparecendo, como o talo de uma planta que começa a surgir para fora do solo.

E uma das ideias que ficou rodando na minha mente foi a de como, às vezes, a novidade está paradoxalmente em retornar ao velho. Como muito do conhecimento que hoje marca o caminho da inovação é, na verdade, conhecimento antigo. Como a ciência atual muitas vezes confirma que a chave para um futuro bem-sucedido para nossa humanidade está em voltar a olhar para trás e retomar a forma como fazíamos as coisas antes.

Brincando com essa ideia — porque parte do processo criativo da escrita é justamente brincar com ideias sem tentar rebatê-las automaticamente, sem tentar racionalizá-las imediatamente — lembrei de como eu fazia minhas pesquisas para as tarefas da escola. Foi sem modelos generativos de inteligência artificial, sem motores de busca e, ainda que pareça incrível, até sem computador.

Foi com isso aqui:

A Enciclopédia SALVAT, edição de 1972, impressa em 1975 na Espanha para a América Latina. Na introdução, falam do inovador que foi publicar aquele dicionário especializado e ilustrado, impresso com as últimas tecnologias da época, para ajudar a difundir informação e cultura em nível global. Hoje, parece uma coleção obsoleta de livros do passado. Se você nunca viu uma, tenho o prazer de lhe apresentar a SALVAT.

Sei do que fala a introdução porque acabei de lê-la. Fui ao escritório da minha casa — a casa de três gerações da minha família — onde essas enciclopédias ainda permanecem, 50 anos depois. Motivada pela curiosidade e deixando a ideia que cresceu da semente plantada há uma semana brincar na minha cabeça, fui buscar ali a definição de inovação.

Além da “ação e efeito de inovar”, seguida da definição de inovar como “mudar, alterar as coisas, introduzindo novidades”, a maravilhosa e setentista SALVAT faz referência à teoria econômica da inovação de J. A. Schumpeter, introduzida em 1934 — mais atrás ainda, quase um século!

Totalmente ligada às empresas, aos procedimentos produtivos, à monopolização e, essencialmente, ao capitalismo e ao seu desenvolvimento:

“historicamente, o crescimento econômico do capitalismo ocorreu graças ao surgimento de ondas cada vez maiores de inovações, que estabelecem novas funções de produção, desenvolvendo seus efeitos em longos períodos (50-60 anos) e suscitando, por sua vez, inovações menores que ampliam a influência das mais importantes”.

SALVAT 1975 Inovacion

Pela minha sucinta investigação jornalística desta noite, já vemos como passamos pelo menos um século associando inovação diretamente ao crescimento do capitalismo. Sem dúvida, um século dessa associação nos condicionou a pensar que inovação é apenas aquilo que contribui para gerar mais e mais dinheiro. Vemos isso facilmente nas notícias relacionadas à inovação e em como elas são transversais à economia.

Porém, na minha perspectiva, a inovação é transversal a todos os aspectos humanos. Como seres humanos, nosso desenho Divino e nossa inteligência particular — para dizer pouco sobre nossa capacidade intelectual — fazem de nós criaturas naturalmente inclinadas a expandir o que já existe, inventar algo novo e estar em constante criação. Assim, a inovação faz parte da natureza humana em todos os sentidos.

Por isso, quando falei com Aldo na semana passada sobre minha colaboração aqui, perguntei o que significava inovação para ele. Ao que respondeu: “resolver uma dor da vida das pessoas”.

Foi aí que tive a certeza de que poderíamos colaborar. Falei para ele que poderia esperar da minha coluna mais inovação social, artística, humana e cultural do que tecnológica ou baseada em uma visão puramente capitalista.

Mas há algo com o qual concordo profundamente na teoria de J. A. Schumpeter citada pela SALVAT, quando fala da “introdução de novas combinações dos fatores” — vamos tirar apenas a parte da “produção” e do “empresário” — “modificando profundamente o sistema anterior”.

Olha que lindo!

A inovação humana como caminho para modificar o sistema anterior: o capitalismo extrativista, destrutivo e desumanizado. A inovação que resolve as dores das pessoas e também as dores do planeta.

Amo o processo criativo da escrita, que me permite trazer para a vida, de maneira estruturada, as ideias que reviram meu subconsciente e minha mente consciente, alimentada pelas minhas experiências incríveis de vida em nível global, e que hoje tenho a oportunidade de colocar na mesa de vocês, cumprindo mais um sonho de vida: escrever em português.

Isso mesmo que você acabou de ler é o que pode esperar desta coluna que escrevo “à antiga” — usando o poder natural e humano de inovar.

Obrigada por me ler. Volte sempre.

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Sou jornalista internacional, estrategista de experiências e uma observadora apaixonada das transformações humanas do nosso tempo. Minha trajetória atravessa os ecossistemas globais de inovação, eventos, comunicação, criatividade, tecnologia e comportamento humano. Como colombiana e nômade digital, vivo entre culturas, cidades e ideias, explorando as conexões entre inovação, humanidade e futuro.

Escrevo para provocar reflexões, conectar mundos e imaginar formas mais humanas de criar, liderar e evoluir. Hoje, escolho usar a escrita como ponte entre experiências globais, pensamento crítico e transformação social.

Estou aberta a colaborações, palestras, projetos editoriais, consultorias estratégicas e conversas com pessoas e organizações que desejem reinventar o futuro com mais consciência, criatividade e impacto humano.

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