A Mangueira celebrou quase um século de existência com uma programação que reafirma seu papel não apenas como escola de samba, mas como um quilombo urbano e pilar de assistência social no Rio de Janeiro.
Na última terça-feira, o Morro da Mangueira acordou com o som da tradicional alvorada. Não era apenas o início de um dia de festa, mas a celebração de 98 anos de uma das instituições culturais mais importantes do Brasil. Fundada em 28 de abril de 1928, a Estação Primeira de Mangueira transformou seu aniversário em um manifesto de resistência e vitalidade, mesclando a pompa militar da Banda do Corpo de Bombeiros com o ritmo ancestral do Samba da Volta.
O Som da Tradição e o Compromisso Social
As festividades começaram cedo no Palácio do Samba. A presença da Banda do Corpo de Bombeiros trouxe um tom solene e histórico à celebração, remetendo às origens das grandes festas populares cariocas. No entanto, a Mangueira sabe que sua força reside na comunidade. Por isso, a programação incluiu ações sociais oferecendo serviços de cidadania e saúde para os moradores locais, reforçando o lema de que a escola é, antes de tudo, um braço de apoio para os moradores.
Guardiã da Memória Negra
Um dos pontos altos da celebração foi a exaltação da história da “Verde e Rosa” como guardiã do samba. Em um cenário onde a cultura negra muitas vezes precisa lutar para ser preservada, a Mangueira se destaca por manter viva a chama de seus fundadores, como Cartola, Carlos Cachaça e Zé Espinguela.
A escola aproveitou a data do quase centenário para celebrar figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas do samba como as baianas, a velha guarda e os baluartes que carregam o DNA da Estação Primeira de Mangueira. Esse aspecto foi um dos pilares de destaque em como a escola consegue ser moderna e competitiva no Sambódromo sem perder a essência do samba de terreiro em suas origens.
O Samba da Volta e o Olhar para o Centenário
O encerramento não poderia ser diferente: muito samba. O grupo “Samba da Volta” comandou a roda que uniu gerações. Entre uma nota e outra, o sentimento de quem passou pelo Palácio do Samba era de contagem regressiva. Com 98 anos, a Mangueira entra oficialmente na reta final para o seu centenário em 2028.
Até lá, o desafio permanece o mesmo que norteou sua fundação há quase um século como a voz do morro, com a elegância do samba e um símbolo inabalável da identidade brasileira. Nessas quase 10 décadas de existência, a escola continua provando que sua bandeira é, acima de tudo, um manto de proteção e orgulho para a cultura nacional.