A transformação digital no ecossistema financeiro e jurídico brasileiro avançou para uma nova fase de maturidade, onde a inteligência artificial (IA) deixa de ser um acessório e assume o papel de infraestrutura essencial para a segurança jurídica. A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) promoveu, nesta quarta-feira, 17 de junho, na sede do JusBrasil, em São Paulo, o fórum “Aplicação Prática de IA no Jurídico”. O encontro reuniu cerca de 60 especialistas e executivos para debater como a tecnologia de dados está reformulando rotinas operacionais, otimizando a recuperação de ativos e estruturando mecanismos de defesa contra um dos principais gargalos do sistema de Justiça atual: a litigância predatória.
A urgência do debate é respaldada por dados alarmantes de infraestrutura do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que apontam que o Brasil encerrou o ano com 83,8 milhões de processos pendentes. Esse cenário de asfixia judicial é severamente agravado por ações abusivas, repetitivas ou ajuizadas sem o efetivo consentimento dos autores. Essa dinâmica inflaciona os custos operacionais do setor público, eleva o risco regulatório e drena recursos financeiros de segmentos vitais como o mercado financeiro, a saúde suplementar, o grande varejo e o setor de transporte aéreo.
Combate estratégico à litigância predatória
Na abertura do fórum, o CEO da ABBC, Leandro Vilain, classificou a litigância predatória como uma “doença silenciosa” que fragiliza o ambiente de negócios e atenta contra a competitividade do país. Para o executivo, os modelos de IA funcionam como barreiras sanitárias digitais, capazes de processar dados em larga escala, cruzar informações padronizadas e mapear comportamentos de abuso processual antes que eles gerem prejuízos em cadeia.
A consolidação de defesas automatizadas ganhará tração técnica nos próximos meses. O diretor jurídico da ABBC, Felipe Natale, adiantou o lançamento iminente de um consórcio tecnológico setorial. Trata-se de um projeto de inteligência artificial desenvolvido em cooperação com associações representativas dos setores de aviação, construção civil, mercado imobiliário, mercado de seguros e telecomunicações. O objetivo central do ecossistema compartilhado será o rastreamento preditivo e a identificação precoce de indícios de ações predatórias em múltiplos tribunais.
Cases práticos de IA: automação corporativa e o modelo human-in-the-loop
O evento concentrou-se na apresentação de resultados de plataformas em operação no mercado, demonstrando ganhos severos de produtividade e redução de trabalho mecânico:
Omni Banco
A Superintendente Jurídico da Omni, Alessandra Caribé, detalhou a operação da “Advogada Virtual”, uma plataforma agêntica voltada à automação integral da esteira judicial de busca e apreensão de garantias. A IA atua na distribuição autônoma e no impulsionamento inteligente dos andamentos até o encerramento do processo. A executiva ressaltou que a tecnologia acelerou a recuperação de crédito e o retorno de capital, mantendo a equipe humana em uma camada superior de auditoria e responsabilidade jurídica sobre as decisões do robô.
BNDES
O banco de desenvolvimento apresentou a Jud-e, uma assistente baseada em uma arquitetura de múltiplos agentes de IA focada em otimizar a due diligence jurídica manual de quase 30 mil clientes. A solução faz varreduras automatizadas em mais de 80 tribunais e adota rigorosamente o modelo human-in-the-loop (validação humana obrigatória em fases críticas). Conforme exposto pelo cientista de dados Allan Dominguez e pelo advogado coordenador Leonardo Nunes, a Jud-e apresenta indicadores impactantes:
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Redução de até 95% no esforço humano residual em tarefas puramente mecânicas.
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Encurtamento do tempo de análise documental de vários dias para menos de uma hora.
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Garantia de auditoria plena, transparência e segurança da informação no mapeamento de riscos corporativos.
Pessoa & Pessoa
O Diretor Executivo de Operações do escritório, Ricardo Villas-Bôas, detalhou a engenharia de dados implementada na banca de advocacia. A estratégia dividiu-se na estruturação de um data lake corporativo integrado a painéis de controle (dashboards) analíticos para subsidiar tomadas de decisão, combinados a robôs de checagem automatizada para acelerar os fluxos de transferência de informação e cadastros processuais.
A IA jurídica como camada de infraestrutura universal
O fechamento das apresentações coube ao CEO do JusBrasil Soluções, Felipe Moreno, que apresentou dados consolidados sobre a penetração da tecnologia no cotidiano jurídico. Um levantamento estatístico revelou que 76% dos profissionais do Direito já utilizam ferramentas de IA generativa pelo menos uma vez por semana. Os principais casos de uso são:
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Elaboração de peças processuais: 76%
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Pesquisa jurídica e jurisprudencial: 59%
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Redação de pareceres técnicos: 58%
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Análise analítica de contratos: 56%
Moreno destacou o reposicionamento do JusIA, que superou o status de mera ferramenta acessória para se consolidar como uma camada de infraestrutura de trabalho essencial, conectando doutrina, jurisprudência e legislação em tempo real. A plataforma transaciona uma base mensal de 300 mil advogados ativos e foi universalizada em todos os planos da companhia para democratizar o acesso à inteligência preditiva de dados no país.
Brasil Inovador
O debate capitaneado pela ABBC no JusBrasil comprova que a transformação digital do ecossistema de Justiça brasileiro atingiu maturidade crítica, migrando de assistentes de texto básicos para arquiteturas agênticas e integradas, uma dinâmica acompanhada com exclusividade pelo Brasil Inovador. Para o Brasil Inovador, a grande disrupção contida nas discussões é a transição da inteligência artificial de uma ferramenta de eficiência interna de escritórios para uma arma de defesa macroeconômica. A articulação de um projeto de IA multissetorial unindo bancos, operadoras de telecomunicações, construtoras e companhias aéreas é uma resposta inovadora ao custo Brasil gerado pelos 83,8 milhões de processos pendentes no Judiciário.
Sob a ótica fiscal e de governança, o case do BNDES com a Jud-e — que encurta análises de risco de dias para minutos com 95% de redução de esforço — ilustra com perfeição o conceito de Estado eficiente e orientado por dados (data-driven). O grande desafio estrutural para o mercado jurídico brasileiro nos próximos ciclos será manter o equilíbrio do modelo human-in-the-loop. À medida que os sistemas tomam decisões preditivas mais complexas na recuperação de crédito ou na triagem de abusos processuais, a supervisão ética e técnica do advogado torna-se o principal ativo de auditoria. Ao fundir a robustez das bases de dados do JusBrasil com a governança analítica das instituições financeiras, o país demonstra que o futuro da advocacia reside na capacidade de processar dados com precisão cirúrgica para pacificar litígios, baratear o custo do crédito e blindar o setor produtivo contra desvios de finalidade da Justiça.