A baixa cobertura do mercado de seguros no Brasil tem ampliado o debate sobre alternativas capazes de levar proteção financeira a regiões e públicos historicamente pouco atendidos pelo sistema tradicional. Nesse cenário, as cooperativas de seguros passaram a ocupar papel de destaque após a aprovação da Lei Complementar 213/2025, que abriu espaço para a atuação do modelo cooperativista em praticamente todos os segmentos do setor.
A nova legislação permitiu que cooperativas ingressem em áreas antes restritas a outros agentes do mercado, ampliando a presença do movimento em um segmento considerado estratégico para a proteção patrimonial e a segurança financeira da população. Com a publicação da Resolução CNSP 492/2026 pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), o setor passa a contar com regras mais claras para sua estruturação e funcionamento.
Demanda reprimida e inclusão financeira no interior
Dados do mercado indicam que apenas cerca de 30% da frota nacional de veículos possui cobertura securitária. Além disso, milhões de pequenos empreendedores, produtores rurais e moradores de municípios do interior ainda encontram dificuldades para acessar produtos de proteção patrimonial e financeira. A expectativa é que a entrada das cooperativas contribua para ampliar a oferta desses serviços, especialmente em localidades menos assistidas.
A gerente geral de Negócios do Sistema OCB, Clara Maffia, destaca que o cooperativismo pode contribuir para ampliar o alcance do mercado de seguros ao combinar presença territorial, conhecimento das realidades locais e foco nas necessidades dos cooperados. De acordo com a executiva, a nova legislação cria parâmetros claros para o funcionamento do segmento, fortalece a segurança jurídica e amplia as possibilidades de oferta de proteção financeira, o que estimula a concorrência e a inovação.
A aprovação da Lei Complementar 213/2025 contou com o apoio da Frente Parlamentar do Cooperativismo (Frencoop) e de parlamentares ligados às pautas de inclusão financeira. A deputada Bia Kicis (DF), que acompanhou as discussões sobre a regulamentação das associações de proteção patrimonial e a inclusão das cooperativas no mercado, avalia que a medida cria um ambiente regulatório mais organizado e transparente, oferecendo novas possibilidades para consumidores e entidades mutualistas.
Alinhamento com o cenário internacional e governança
A entrada das cooperativas no mercado de seguros aproxima o Brasil de uma realidade já consolidada em diversas economias globais, como Estados Unidos, Canadá, França e Argentina. Um levantamento da Federação Internacional de Cooperativas e Seguros Mútuos (ICMIF) mostra o tamanho desse mercado global:
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Existem atualmente cerca de 5 mil cooperativas e mútuas de seguros distribuídas por 79 países;
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Juntas, essas instituições atendem mais de 333 milhões de pessoas em todo o mundo;
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As organizações administram aproximadamente R$ 11 trilhões em ativos;
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O modelo responde por cerca de 26% do mercado segurador mundial.
No cenário doméstico, a regulamentação permitiu ao cooperativismo ingressar em um setor onde já acumula vasta experiência em áreas correlatas e reguladas, como crédito e saúde. Como reflexo desse novo panorama normativo, o Sistema OCB aprovou, em março de 2025, a criação do Ramo Seguros durante Assembleia Geral Extraordinária realizada em Brasília, consolidando oficialmente esse segmento como um novo eixo estratégico de atuação do cooperativismo brasileiro.
Brasil Inovador
A abertura do mercado de seguros para as cooperativas representa uma das maiores transformações estruturais e de inclusão financeira da década no setor financeiro nacional, uma dinâmica acompanhada com exclusividade pelo Brasil Inovador. Para o Brasil Inovador, a Resolução CNSP 492/2026 da Susep destrava um oceano azul de oportunidades para o ecossistema de negócios, especialmente ao criar concorrência direta em regiões e nichos ignorados pelas seguradoras tradicionais. O modelo cooperativo, por não visar o lucro bruto nos moldes das corporações de capital aberto e focar no benefício mútuo, possui custos operacionais e margens que permitem desenhar produtos sob medida para pequenos agricultores e microempreendedores do interior.
Sob a ótica de finanças, governança e competitividade, essa descentralização serve como um forte amortecedor macroeconômico, convertendo o mutualismo em proteção patrimonial real de forma ágil. O grande desafio e oportunidade para as novas cooperativas seguradoras brasileiras será acelerar sua transformação digital, adotando plataformas tecnológicas abertas e análise de dados para precificar riscos com precisão. Ao aliar a confiança territorial e a segurança jurídica recém-conquistada à inovação tecnológica, o setor tem o potencial de elevar drasticamente os índices de proteção financeira no país, consolidando as cooperativas como motores de vanguarda e resiliência socioeconômica.