Apenas 25% dos conselhos no Brasil tratam clima como prioridade, aponta estudo

Levantamento da Ernst & Young mostra que a pauta climática ocupa a última posição entre nove áreas analisadas nos conselhos de administração, mesmo com o crescimento da agenda ESG

Mesmo diante do avanço global da agenda ESG e da pressão por compromissos ambientais, a pauta climática segue como a última prioridade dos conselhos de administração no Brasil. Um estudo divulgado pela Ernst & Young em janeiro deste ano mostra que o tema ocupa a última posição entre nove áreas analisadas, sendo citado como prioridade por apenas 25% dos entrevistados. O levantamento ouviu mais de 100 membros de conselhos de administração no país.

Os dados também mostram que o percentual não é apenas baixo, mas vem caindo ao longo dos anos. Mudanças climáticas e gestão ambiental foram apontadas como prioridade por 34% dos respondentes em 2024 e por 29% em 2025. Em dois anos, o tema perdeu quase dez pontos percentuais de relevância nas discussões do alto escalão corporativo brasileiro.

A baixa prioridade atribuída ao tema revela uma distância entre os impactos já percebidos no ambiente de negócios e a forma como parte dos conselhos ainda enxerga a agenda climática e ESG. Para Alexandre Chaves, sócio da Auddas, consultoria que atende empresas privadas com necessidade de expansão, a pauta climática ainda aparece com baixa prioridade porque muitos conselhos continuam tratando o tema como uma agenda de sustentabilidade, reputação ou compliance, e não como uma variável central de estratégia, risco e alocação de capital. 

“Em um ambiente de pressão por crescimento, rentabilidade, tecnologia, eficiência e cenário macroeconômico, o clima acaba competindo com pautas percebidas como mais urgentes no curto prazo”, destaca. 

Ele adiciona que essa leitura é cada vez menos aderente à realidade, já que eventos climáticos extremos, mudanças regulatórias, exigências de investidores, cadeias globais de fornecimento e custo de capital já impactam diretamente a competitividade das empresas. “A baixa prioridade não decorre da relevância do tema, mas de uma defasagem na forma como parte dos conselhos ainda interpreta o impacto climático sobre o negócio”, ressalta. 

Na ciência, o alerta é claro. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) aponta que as atividades humanas causaram o aquecimento global, com a temperatura média da superfície do planeta chegando a 1,1 °C acima dos níveis registrados entre 1850 e 1900, no período de 2011 a 2020, com tendência de alta.

O contraste entre a urgência climática e a prioridade dada pelas empresas também aparece na percepção dos próprios conselheiros. Ao serem questionados sobre a adequação dos recursos e do tempo dedicados aos temas prioritários, eles indicaram que gostariam de ampliar seus conhecimentos e sua dedicação justamente em mudanças climáticas e gestão ambiental.

O topo da agenda

Condições econômicas e alocação de capital lideram o ranking das prioridades para 2026, com menções de 82% e 80% dos respondentes, respectivamente. Inovação e tecnologias emergentes aparecem na sequência, impulsionadas pela inteligência artificial generativa, citada por mais de 70% dos conselheiros.

Esse movimento acompanha o cenário global, em que a retração regulatória e a incerteza política têm servido de justificativa para o recuo de compromissos ambientais. O pacote Omnibus da União Europeia e a retirada da regra de divulgação climática pela Securities and Exchange Commission (SEC), nos Estados Unidos, exemplificam a instabilidade regulatória que tem levado empresas a calibrar suas estratégias climáticas, segundo o relatório Global Climate Action Barometer, também da Ernst & Young.

Ao mesmo tempo, 44% das metas revisadas por empresas globais refletiram redução de ambição, com prazos adiados ou percentuais de corte de emissões reduzidos entre os relatórios de 2023 e 2024.

No cenário regulatório, porém, o movimento segue em outra direção. O International Sustainability Standards Board (ISSB), criado no âmbito da IFRS Foundation, vem desenvolvendo padrões globais de divulgação de sustentabilidade voltados a qualificar o diálogo entre empresas e investidores, com informações comparáveis e úteis para a tomada de decisão.

Priorização do assunto

A priorização da agenda climática exige que o tema deixe de ser tratado apenas como obrigação e passe a fazer parte das decisões centrais do negócio, sendo o primeiro passo a discussão de perguntas objetivas sobre riscos, oportunidades, inovações, acesso a capital e cadeia de fornecedores. 

Segundo Alexandre Chaves, quando a pauta climática entra no processo decisório, com indicadores, metas, responsáveis e impacto financeiro mensurável, ela deixa de ser apenas uma obrigação reputacional ou regulatória e passa a ser parte da governança estratégica. 

“O papel do conselho é justamente provocar essa mudança de chave, garantindo que o tema seja tratado com a mesma disciplina dedicada a capital, tecnologia, riscos e crescimento”, completa.

A adoção crescente desses padrões em mercados desenvolvidos tende a pressionar empresas brasileiras com atuação internacional. Os dados da pesquisa da Ernst & Young indicam que eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, já começam a afetar diretamente o desempenho dos negócios, enquanto a mobilização por uma cultura preventiva e pela construção de resiliência empresarial tende a ganhar mais espaço.

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