A Divisão de Hematologia do HC comemora a realização de mil transplantes de medula óssea em dez anos. Segundo Vanderson Rocha, hoje já é possível realizar transplantes mesmo com doadores incompatíveis. Extração de medula óssea – Foto: Wikimedia Commons
A Divisão de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP está comemorando a obtenção de um marco histórico: a realização de mil transplantes de medula óssea em dez anos. Como se não bastasse, a nova unidade de transplantes, sediada no 8º andar do HC, trouxe mais leitos, mais segurança e mais acesso ao tratamento. Mais importante: a sobrevida dos pacientes passou de 30% para 70%.
O professor Vanderson Rocha, responsável por aquela divisão, conta que vários fatores contribuíram para que a marca dos mil transplantes fosse alcançada, entre eles o fato de hoje ser possível realizar transplantes até com doadores incompatíveis, a partir das técnicas atualmente disponíveis para esse procedimento médico. Graças a isso, foi possível, ao longo do tempo, aumentar o número de doadores. “Antigamente não tínhamos essa possibilidade de fazer transplantes incompatíveis”, revela, o que só se tornou viável pelo uso de novos conhecimentos e novas tecnologias.
Outro ponto a merecer destaque é a melhora no suporte infeccioso dos pacientes por meio de novos antibióticos e detecções de infecções de biologia molecular. Também ajudou nessa luta a implantação da nova unidade de transplantes, isenta de contaminações exteriores. Ele menciona ainda a utilização de uma terapia inovadora, a CAR-T Cell, por meio da implantação em pacientes portadores de linfoma de células com capacidade de combater as células cancerosas, um procedimento que dura cerca de um mês entre a retirada e a devolução dessas células ao organismo, mas que tem custo elevado, algo em torno de US$ 2 milhões e, portanto, de alcance impossível para a maior parte da população brasileira, o que foi contornado graças a pesquisas conduzidas pelo Hemocentro e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Ambos trabalharam juntos para tornar a CAR-T Cell acessível ao SUS, o que deve acontecer, conforme Rocha, em cerca de dois anos.
Estudos em desenvolvimento
No momento, o Centro de Pesquisa Clínica da Hematologia conduz 80 estudos de alta complexidade, envolvendo o uso dessas novas terapias. “Esperamos que o ano que vem já tenhamos alguns resultados para poder ser liberado para a Anvisa para o uso dos pacientes do SUS.” Ele conta ainda que um acordo estabelecido com uma empresa chinesa poderá estender essa tecnologia – que avança em projetos de inteligência artificial para realização de diagnósticos e decisões clínicas – também para pacientes com mieloma múltiplo.
No que se refere à IA, Rocha conta que criou, muito recentemente, um núcleo de inteligência artificial para benefício dos pacientes tanto na parte de diagnósticos quanto na de pesquisas e algoritmos de decisões terapêuticas. “A hematologia é uma especialidade da medicina onde descobrimos muitas novidades, com novas drogas para leucemias e terapias avançadas como a CAR-T Cell, transplantes de medula óssea que atualmente fazemos mesmo com doadores incompatíveis, fazemos também para pacientes idosos.” Ele frisa que, no passado, somente pacientes com até 50 anos de idade poderiam ser submetidos a esse tipo de transplante, mas hoje o procedimento está ao alcance de pessoas com até 70 anos.