Startup OpenSense lança plataforma que mapeia e ajuda a decifrar o potencial de inovação no Brasil

Startup OpenSense lança plataforma que mapeia e ajuda a decifrar o potencial de inovação no Brasil

Roseli Andrion | Pesquisa para Inovação

FAPESP

Durante o doutorado em economia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o cientista da computação Antonio Marcos Marcon se deparou com um desafio aparentemente simples, mas que revelava uma lacuna complexa: como saber, de fato, onde está a inovação no Brasil?

Embora a resposta existisse, ela estava dispersa em dezenas de bases governamentais não integradas. Era como ter as peças de um quebra-cabeça espalhadas em cômodos diferentes de uma mesma casa. Da necessidade de organizar essas informações nasceu a Opensense, uma plataforma que combina inteligência artificial (IA) e big data para transformar dados abertos em fotografias precisas dos ecossistemas de inovação de todos os 5.570 municípios brasileiros.

O projeto teve início em 2020, no Laboratório de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. A pesquisa acadêmica permitiu o registro de uma patente e atraiu o interesse inicial do setor governamental. “Mineramos dados abertos de todo o sistema público brasileiro e, com inteligência artificial, recombinamos as informações e as tornamos conexas”, explica Marcon, CEO da startup.

Em 2024, a empresa cresceu 80% e projeta repetir a taxa em 2025. Entre os clientes estão o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Sebrae, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), as universidades de São Paulo (USP) e Estadual Paulista (Unesp), a Unicamp e grandes empresas, como a Natura.

Incubada no Parque Tecnológico de São José dos Campos desde 2021, a startup contou com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. Sua trajetória rendeu prêmios como o Fiesp Acelera Startup 2022, na categoria Smart Cities, e o Destaque InovAtiva 2023 em Soluções Governamentais.

Sensor de ecossistemas

A plataforma funciona como um sensor de ecossistemas de inovação. Para isso, coleta dados abertos de ministérios como o da Economia, da Educação e o de Ciência, Tecnologia e Inovação, além de agências como o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e órgãos federais e estaduais de fomento.

Posteriormente, via IA, a ferramenta interconecta essas informações a partir de protocolos econômicos e científicos oficiais. O resultado é um compilado robusto que permite o aperfeiçoamento de políticas públicas e análises competitivas empresariais.

Como exemplo, Marcon demonstra a presença de municípios remotos na plataforma, como Pacaraima (RR), na fronteira com a Venezuela. A localidade possui três startups, sistema governamental enxuto, alguns cursos de formação superior e nenhuma patente registrada. Já em São Paulo, a plataforma identifica milhares de ambientes, como parques tecnológicos, incubadoras e universidades de ponta, revelando como esses elementos se relacionam.

“Conseguimos oferecer dashboards com indicadores por região, chegando ao nível do CNPJ das empresas, o que permite análises de competitividade para gestores de inovação”, explica Marcon.

Desafios e assimetrias

As diferenças regionais no Brasil revelam um país que busca se consolidar como polo de inovação, mas enfrenta desafios estruturais. Segundo o Índice Global de Inovação 2024, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Ompi), o Brasil ocupa a 50ª posição entre 133 economias, sendo o líder na América Latina. “A Opensense é uma resposta à urgência de interconectar os estoques de conhecimento e ampliar a colaboração entre pesquisadores, empresas e gestores”, afirma Marcon.

De acordo com o Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento 2024, do INPI, as regiões Sudeste e Sul concentram a inovação nacional, ocupando sete das oito primeiras posições no ranking estadual. O ecossistema brasileiro abriga mais de 12 mil startups ativas e 54 hubs de inovação, segundo a Abstartups. Em 2024, o setor registrou aproximadamente US$ 2 bilhões de investimento em 386 rodadas, indicando uma recuperação gradual após anos de retração.

Aplicações práticas

A plataforma já é utilizada pelo Sebrae do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e de Mato Grosso para mapear a maturidade dos ecossistemas locais. Outro projeto relevante é o mapeamento da Base Industrial de Defesa brasileira para a ABDI, com lançamento previsto para 2026.

Além disso, a ferramenta permite monitorar o desempenho de setores específicos. Pelos radares de economia, geopatentes e geociência, é possível visualizar dados inusitados: desde os polos de criação de jacarés (intensivos em Minas Gerais, Alagoas e Mato Grosso) até inovações em armamentos, como um dispositivo de segurança por íris ocular desenvolvido em Valença (RJ).

A tecnologia também otimiza processos: segundo Marcon, o tempo de desenvolvimento de novos observatórios pode ser reduzido em mais de 70%. Um projeto que levaria um ano para ser implementado pode ser concluído em 60 dias.

Dados democráticos e internacionalização

O nome Opensense reflete a vocação da solução: “sense” para monitoramento e “open” para o compromisso com a democratização da informação. A tecnologia está preparada para operar internacionalmente, seguindo protocolos como a Nomenclatura Estatística das Atividades Econômicas (Nace) da União Europeia e a Classificação Internacional de Patentes (CIP).

“Estamos avaliando as rotas para a internacionalização, especialmente em países com cultura de dados abertos amadurecida, como Portugal, Espanha, Estônia e Reino Unido. Na América Latina, Uruguai e Chile são mercados potenciais”, projeta o CEO.

Para o pesquisador, a Opensense preenche uma lacuna ao integrar análises econométricas e científicas. “Em um país de dimensões continentais, ter informações precisas sobre cada ecossistema local pode ser o diferencial entre políticas genéricas e intervenções cirúrgicas, permitindo que gestores e empresas se posicionem com clareza estratégica”, avalia.

FAPESP

Rede Brasil Inovador

Aldo Cargnelutti é editor na Rede Brasil Inovador.

Somos uma rede colaborativa que promove os ecossistemas de inovação.

Conteúdo
https://brasilinovador.com.br

Conexões
https://brasilinovador.com.br/guia

WhatsApp
+55 11 94040-5356

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.