Por que playbooks globais falham no Brasil: painel no South Summit discute desafios para fintechs

Por que playbooks globais falham no Brasil: painel no South Summit discute desafios para fintechs

Benjamin Gleason, fundador da Kamino e Jonathan Whittle, Co-fundador e Sócio-Gestor da Quona Capital. Foto: divulgação

O encontro teve participação de Benjamin Gleason, fundador da Kamino, e debateu sobre os desafios de construir empresas do zero.

Modelos de fintech bem-sucedidos em mercados desenvolvidos nem sempre se aplicam ao Brasil e à América Latina — onde, paradoxalmente, a infraestrutura financeira é avançada, mas a base de software ainda é fragmentada. Esse foi o principal ponto debatido no painel “Construindo Fintechs em Mercados Emergentes: Por Que os Playbooks Globais Não Funcionam no Brasil e na América Latina”, realizado nesta quarta-feira (25), durante o South Summit Brasil.

O encontro reuniu Benjamin Gleason, fundador da Kamino, Jonathan Whittle, Co-fundador e Sócio-Gestor da Quona Capital, e foi mediado por Miguel Burger-Calderon, Sócio-Gestor da BFF. Ao longo da conversa, os participantes discutiram as particularidades do ecossistema brasileiro, os desafios de construir empresas do zero, e as oportunidades que surgem justamente dessa lacuna estrutural.

Logo na abertura, Burger-Calderon destacou a principal diferença entre mercados emergentes e desenvolvidos: enquanto no exterior as soluções partem da premissa de que a infraestrutura já existe, no Brasil muitas vezes ela precisa ser criada. Para Benjamin Gleason, fundador da Kamino, essa realidade já foi vivida na prática em diferentes momentos de sua carreira.

Segundo ele, embora o país conte hoje com trilhos financeiros sofisticados — especialmente em pagamentos — ainda há um déficit significativo em infraestrutura de software. “Os trilhos financeiros no Brasil são bastante avançados, mas onde ainda há dificuldade é na falta de infraestrutura de software”, explicou. Benjamin destacou que muitas empresas ainda operam com sistemas fragmentados, dependentes de planilhas e processos manuais, o que dificulta a gestão financeira em tempo real. “Muitas vezes, a empresa só percebe que tem um problema de caixa quando já está em apuros”, afirmou.

Nesse contexto, Benjamin viu uma oportunidade: criar a Kamino, uma plataforma de gestão financeira que integra software, conta bancária e cartão corporativo em uma única solução, funcionando como um sistema operacional financeiro para empresas. “Se você se torna a camada base de dados e workflows, você ocupa uma posição estratégica enorme”, disse.

Brasil como mercado sofisticado — mas com baixa penetração

Do ponto de vista de investimento, Jonathan Whittle avaliou o Brasil como um dos mercados mais avançados em infraestrutura financeira entre os emergentes. Ainda assim, apontou que o principal desafio continua sendo a penetração dos serviços. Segundo ele, o avanço mais significativo ocorreu no segmento de consumidores, com a inclusão bancária saltando de cerca de 50% para mais de 90% em menos de uma década. Agora, o foco se volta para as pequenas e médias empresas (PMEs), que ele definiu como “a próxima fronteira” para o setor.

Ao detalhar o funcionamento das PMEs brasileiras, Benjamin ressaltou a complexidade operacional enfrentada por empresas de médio porte, muitas vezes distribuídas em múltiplas entidades e contas bancárias. “Você tem todos esses sistemas diferentes que são completamente fragmentados. Eles não têm uma visão completa dos dados e não são em tempo real”, explicou. A proposta da Kamino, segundo ele, é consolidar essas operações em uma única plataforma, permitindo maior controle financeiro e liberação de tempo para o crescimento do negócio. “Se conseguirmos resolver essa parte financeira, elas podem focar no crescimento”, disse.

Integração profunda como diferencial frente à IA

O impacto da inteligência artificial também entrou na discussão. Para Jonathan, empresas com forte integração de dados e processos terão maior resiliência frente às mudanças tecnológicas. “Plataformas que entendem profundamente os workflows dos clientes têm muito mais resiliência frente à IA”, afirmou.

Benjamin concordou, destacando que a IA já é utilizada internamente e nos produtos da Kamino, mas com limitações claras. “Quando você está movimentando dinheiro, você não vai entregar isso para uma ferramenta de IA para simplesmente rodar sozinha. Estamos falando de empresas que movimentam milhões de dólares por mês, e elas certamente não vão delegar isso completamente a um agente tão cedo”, disse. Ele também apontou que, no Brasil, o desafio vai além da tecnologia: “As empresas não estão necessariamente procurando uma ferramenta de IA: estão procurando algo que resolva problemas reais do mundo real.”

Já o avanço do open finance foi citado como um fator positivo para o ecossistema. Segundo Benjamin, a atuação do Banco Central evoluiu significativamente nos últimos anos, incentivando inovação e competição. “Isso mudou drasticamente, a ponto de o Banco Central efetivamente regulamentar o open banking”, afirmou.

Competição como motor de evolução

Encerrando o debate, Benjamin reforçou que, apesar dos riscos, o impacto das fintechs no sistema financeiro tem sido amplamente positivo. “O que estamos construindo aqui está ajudando o país e ajudando nossos clientes”, afirmou. Ele destacou ainda que a concorrência impulsionada pelas fintechs elevou o padrão de todo o setor: “Mesmo os bancos tradicionais hoje oferecem serviços melhores do que ofereceriam se não fosse a concorrência.”

Jonathan também chamou atenção para a relação entre governança, perfil de investidores e a ocorrência de escândalos no setor financeiro. Com duas décadas de atuação no Brasil, ele afirmou que há um padrão recorrente entre os casos mais problemáticos. “Vou fazer uma afirmação ousada aqui: eu faço negócios no Brasil há 20 anos e tenho acompanhado esses escândalos surgirem. A grande maioria deles envolve empresas que não têm governança adequada. Não têm investidores internacionais. Não têm grandes fundos à mesa”, disse.

Segundo ele, empresas com estruturas mais robustas de governança e presença de investidores institucionais dificilmente teriam espaço para práticas semelhantes. “Eu tenho dificuldade de encontrar, no setor financeiro, empresas com esse nível de governança e base de investidores que sequer seriam permitidas a fazer o que esses maus atores fizeram”, afirmou.

Na avaliação do investidor, o fortalecimento desse tipo de capital é parte da solução para o problema. “Se eu estivesse no lugar do Banco Central ou do governo, faria tudo o que pudesse para incentivar mais investimento estrangeiro — ou melhor, investimento institucional nesse espaço”, disse. Segundo Jonathan, a presença desses agentes tende a elevar o nível de controle e disciplina das empresas, reduzindo riscos sistêmicos e reputacionais.

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