Pomadas para cabelo podem causar cegueira temporária e lesões graves na córnea, alerta oftalmologista

Especialistas reforçam riscos de ceratite química e Anvisa amplia fiscalização sobre produtos irregulares

O uso de pomadas modeladoras para penteados, como tranças e baby hair, tem provocado um alerta de saúde pública no Brasil. Essas formulações, quando entram em contato com água da chuva, suor, piscina ou mar, escorrem para os olhos e podem causar lesões na córnea e até cegueira temporária, um problema conhecido como ceratite química.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou as ações de controle nos últimos anos. Em 2025, o órgão retirou do mercado 47 pomadas que não comprovaram segurança, ampliando o debate sobre o impacto desses cosméticos na saúde ocular.

Ceratite química pode agredir a córnea e exige atenção.

A ceratite química ocorre quando substâncias irritantes atingem os olhos, e pomadas capilares são ricas em ceras e agentes fixadores que irritam a córnea. O contato direto provoca uma reação semelhante a uma queimadura, e os sintomas aparecem rapidamente.

O risco de evolução para uma úlcera de córnea é real, principalmente quando o atendimento é tardio. Nesse estágio, a camada mais profunda da córnea começa a se desgastar, aumentando a chance de sequelas permanentes. Para o Dr. Ricardo Filippo, da COI Oftalmologia, o cenário exige atenção imediata.

“As pomadas modeladoras costumam ter substâncias químicas irritantes, oleosas e, em alguns casos, solventes ou conservantes agressivos. Quando entram em contato com os olhos, rompem a barreira natural de proteção da córnea, podendo causar uma verdadeira queimadura química, levando à morte das células da superfície ocular, inflamação intensa e formação de feridas na córnea”, diz Ricardo.

A orientação inicial é lavar os olhos com água corrente em abundância. Esse procedimento reduz a concentração da substância e alivia parte da irritação. O paciente não deve usar colírios sem prescrição, apertar os olhos e nem tentar remover secreções com as mãos.

Mesmo que o desconforto diminua, a avaliação médica deve ser imediata. O ideal é procurar um oftalmologista em poucos minutos, sobretudo quando há dor intensa, lacrimejamento contínuo ou dificuldade de enxergar.

“Esperar a dor passar é um erro comum e perigoso. A permanência do produto químico em contato com o olho aumenta o dano à córnea a cada minuto. O uso de colírios caseiros ou sem orientação médica pode agravar a lesão, mascarar sintomas ou até causar infecções secundárias. A lavagem imediata com água corrente é fundamental como primeiro socorro; no entanto, não neutraliza totalmente o produto nem avalia a profundidade da lesão”, enfatiza Filippo.

Produtos mais seguros e como escolher formulações com menor risco

Especialistas recomendam atenção à composição dos produtos usados no cabelo. Pomadas com base oleosa, ceras pesadas e solventes têm maior probabilidade de escorrer para os olhos. Por isso, alternativas incluem o uso de géis à base de água ou produtos com formulações mais leves.

Consultar a lista de produtos regularizados pela Anvisa é essencial. Além disso, consumidores devem observar rótulos, verificar se há registro ativo e evitar produtos com composição duvidosa.

“Para quem utiliza produtos de estilização capilar, a principal recomendação é evitar aplicar o produto próximo aos olhos, sobrancelhas e linha frontal do rosto, além de lavar bem as mãos após o uso. É importante também evitar o uso excessivo e não aplicar o produto com o cabelo molhado. Produtos com alta concentração de álcool, solventes fortes, fragrâncias intensas e conservantes irritantes devem ser evitados, optando por produtos dermatologicamente testados”, finaliza Dr. Ricardo.

Como verificar produtos autorizados e entender as ações da Anvisa

A lista de cosméticos regularizados está disponível no portal da própria Anvisa. O consumidor pode consultar o número de registro presente no rótulo e confirmar se o item é seguro.

As ações incluem investigação das fórmulas, apreensão de lotes e orientações para retirada imediata do mercado. O objetivo é evitar novos episódios de intoxicação ocular e reduzir o número de atendimentos de emergência.

Tratamento e riscos de não procurar um especialista

Quando ocorre uma ceratite química, o tratamento pode incluir colírios antibióticos, anti-inflamatórios e lubrificantes, com acompanhamento. Nas lesões graves, pode haver necessidade de curativos especiais, medicamentos de uso prolongado ou intervenções cirúrgicas.

A ausência de atendimento oftalmológico aumenta o risco de sequelas. Entre as complicações possíveis estão cicatrizes na córnea, sensibilidade crônica à luz, dor persistente e perda parcial ou permanente da visão.

A ceratite química evolui rapidamente, e a busca por atendimento especializado é decisiva para preservar a visão. Por isso, centros oftalmológicos destacam que a avaliação precoce evita complicações.

Os casos reforçam a necessidade de orientação, prevenção e acompanhamento médico. O uso consciente de produtos capilares e o respeito às recomendações dos profissionais são passos essenciais para impedir novas ocorrências.

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