Por Daniel Rodrigues, da Piera, consultoria em inovação. Foto: divulgação
A vantagem competitiva nasce da combinação estratégica dos instrumentos de fomento à inovação
O montante de R$ 17,3 bilhões aprovado para inovação em 2025 pelo BNDES, resultando em acúmulo de R$ 36,2 bilhões no triênio 2023 a 2025, marca um momento decisivo na política industrial brasileira. Houve crescimento de 411% nas aprovações de crédito em comparação ao período anterior, e isso indica que o financiamento ao desenvolvimento tecnológico passou a ocupar posição central na estratégia de neoindustrialização, consolidando a inovação como vetor estruturante do crescimento econômico.
O desafio agora consiste em transformar o volume aprovado em estrutura financeira inteligente, capaz de organizar os diferentes instrumentos de fomento de forma integrada e estratégica. O Brasil construiu, ao longo dos últimos anos, um sistema robusto que combina crédito subsidiado, subvenção econômica e incentivos fiscais. Ainda assim, esses mecanismos continuam sendo utilizados de maneira fragmentada por grande parte das empresas, o que reduz seu potencial de impacto sobre produtividade e competitividade.
A chamada matemática da inovação parte de um raciocínio simples, embora pouco incorporado à prática empresarial. As subvenções econômicas operadas pela Finep financiam a etapa de maior risco tecnológico com recursos não reembolsáveis, reduzindo o custo médio de capital do projeto. A contrapartida empresarial pode ser enquadrada em mecanismos como a Lei do Bem, permitindo recuperação fiscal relevante. O crédito do BNDES, por sua vez, entra na fase de consolidação, industrialização e escala, garantindo fôlego financeiro para transformar pesquisa em resultado de mercado. Quando estruturados em conjunto, esses instrumentos criam um efeito multiplicador que altera profundamente a lógica tradicional de análise de retorno e risco.
Esse modelo ganha ainda mais relevância diante da necessidade de elevar a produtividade nacional e ampliar a participação do Brasil em cadeias globais de maior valor agregado. O crescimento de 9.186% nas aprovações de crédito para a região Norte, que passaram de R$ 15,9 milhões para R$ 1,4 bilhão no triênio 2023-2025, sinaliza também um esforço de descentralização do financiamento à inovação e de ampliação da base geográfica da política industrial. O fato de o Programa Mais Inovação, maior iniciativa de fomento à inovação da história do país, concentrar 78% das aprovações demonstra que houve estruturação institucional capaz de dar escala e previsibilidade ao acesso aos recursos.
Apesar do avanço, persiste um ponto crítico que precisa ser enfrentado com maturidade. O Brasil aumentou a oferta de capital, mas muitas empresas ainda não desenvolveram o letramento financeiro necessário para estruturar projetos considerando toda a arquitetura pública disponível. Conselhos e diretorias continuam avaliando iniciativas tecnológicas apenas sob métricas tradicionais de retorno, sem incorporar adequadamente a redução de risco proporcionada pela combinação entre crédito, subvenção e incentivo fiscal.
Fazer a matemática da inovação exige planejamento estratégico, governança e integração entre áreas técnicas e financeiras. Exige compreender que os instrumentos não competem entre si, mas compõem uma engrenagem capaz de destravar projetos que, avaliados isoladamente, pareceriam excessivamente arriscados.
O país já colocou volumes históricos de recursos à disposição e sinalizou prioridade política. Converter essa engenharia financeira em vantagem competitiva concreta dependerá da capacidade do setor produtivo de internalizar essa lógica e transformar financiamento em produtividade, tecnologia e crescimento sustentável.
*Daniel Rodrigues é sócio-diretor na Piera Consultoria de Inovação, líder da área de Consultoria. Especialista em Gestão da Inovação, Estratégia, Design Thinking e User Experience. Possui atuação focada no desenvolvimento e implantação efetiva de modelos de gestão da inovação e inteligência competitiva, projetos de inovação aberta e formulação de estratégia e visão de futuro em empresas-líderes nacionais e multinacionais. Administrador de Empresas pela Universidade de São Paulo e pela Escola Superior de Comércio de Marseille – Euromed (França). Possui Mestrado Profissional em Empreendedorismo e Inovação pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP).