Quando Maria Clara Laet sobe ao palco, o som não vem apenas da música. Vem também dos pés. Para a artista brasileira, o sapateado nunca foi somente dança: é ritmo, narrativa e identidade cultural. Hoje radicada em Nova Iorque, ela vem conquistando espaço em uma das cenas mais competitivas do mundo ao unir jazz, ritmos brasileiros e pesquisa sobre ancestralidade africana em performances que misturam dança, percussão e audiovisual.
A trajetória internacional ganhou força após a criação de “Luvemba”, videodança desenvolvida durante a pandemia, em meio ao luto pela perda do avô para a Covid-19. Inspirado em tradições Bantu/Congo, o trabalho percorreu festivais na Europa e nas Américas e acabou se tornando o projeto que abriu as portas para sua mudança definitiva para os Estados Unidos, em novembro de 2023.
Desde então, Maria Clara passou a integrar a companhia kamrDANCE e a participar de produções ligadas à cena contemporânea nova-iorquina. Entre apresentações em casas de jazz e projetos experimentais, a artista já pisou em palcos históricos como o Apollo Theater e também integra iniciativas apoiadas pela Universidade de Yale, nas quais atua não apenas como dançarina, mas também cantando e tocando percussão.
Muito antes de Nova Iorque entrar em sua vida, porém, o encontro decisivo havia acontecido ainda na infância. Maria Clara tinha apenas seis anos quando descobriu o sapateado. Diferente do balé, modalidade que não despertava seu interesse, o som produzido pelos pés imediatamente chamou sua atenção. A dança virou paixão e, pouco tempo depois, também linguagem artística.
A mudança para São Paulo ampliou ainda mais esse universo. Na Kika Tap Center, referência nacional na modalidade, ela encontrou um ambiente que misturava formação técnica e pertencimento artístico. Foi ali que surgiram as primeiras experiências profissionais, incluindo apresentações no Brasil International Tap Festival e a participação na companhia jovem “KatadoS por Aí”.
Paralelamente à dança, Maria Clara seguiu o caminho acadêmico e se formou em História pela USP. O curso acabou aprofundando sua própria pesquisa artística. Ao estudar a diáspora africana, passou a enxergar conexões entre o sapateado e ritmos brasileiros como o samba, entendendo a prática também como continuidade cultural e expressão de resistência.
Essa visão aparece diretamente em seus trabalhos atuais. Em vez de reproduzir apenas o sapateado tradicional norte-americano, Maria Clara propõe uma fusão entre influências brasileiras, jazz, hip hop e breakdance. Em muitos projetos, o sapateado funciona como instrumento de percussão, dialogando musicalmente com toda a cena sonora da apresentação.
A relação com a arte também atravessa sua história familiar. O sobrenome artístico “Laet”, herdado da mãe, cenógrafa e parceira criativa, representa uma conexão afetiva que permanece presente em seus processos de criação. “Minha mãe sempre foi uma voz importante no meu trabalho. Ela me impulsiona e me ajuda a evoluir artisticamente”, afirma.
Entre videodanças, performances e experimentações musicais, Maria Clara Laet constrói uma trajetória que ultrapassa fronteiras e reposiciona o sapateado como linguagem contemporânea. E, ao que tudo indica, o ritmo dessa história está apenas começando.