Dayvid Santos: Por um Brasil inovador e soberano – tecnologia a serviço do povo

Dayvid Santos: Por um Brasil inovador e soberano - tecnologia a serviço do povo

Deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ), autora do Projeto de Lei 5294/2025 (foto: Kayo Magalhães/Agência Câmara)

POR DAYVID SANTOS

Enquanto o mundo avança em direção a uma Quarta Revolução Industrial, marcada por inteligência artificial, internet das coisas e machine learning, o Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar uma verdade fundamental: não haverá futuro tecnológico soberano sem incluir, desde já, a inovação que emerge dos nossos territórios e das nossas comunidades. O Projeto de Lei 5294/2025 de autoria da deputada federal Jandira Feghali – PCdoB, que institui a Política Nacional de Tecnologia e Inovação Social, representa exatamente essa visão estratégica e necessária.

A história da humanidade é marcada por saltos de desenvolvimento baseados na capacidade de suas sociedades de criar soluções para desafios concretos. Impérios como os Incas, Maias e Astecas não foram apenas construtores de cidades, mas engenhosos desenvolvedores de técnicas agrícolas, de manejo hídrico e de organização social que lhes garantiram sobrevivência, prosperidade e resiliência. Eles nos lembram que a verdadeira inovação não é aquela que apenas surpreende, mas a que resolve.

O Brasil do século XXI precisa resgatar esse espírito, mas em nova chave. Não se trata de escolher entre desenvolver semicondutores ou biodigestores. A visão do PL é justamente a de que tecnologias de ponta e tecnologia social são complementares e devem andar juntas. Por exemplo i) A inteligência artificial pode otimizar a logística de distribuição de alimentos da agricultura familiar; ii) a internet das coisas pode monitorar a qualidade da água em comunidades ribeirinhas; e iii) os avanços em novos materiais podem baratear placas solares para a geração de energia distribuída. A Política proposta pela deputada Jandira Feghali cria o ecossistema para que essa sinergia aconteça.

Adicionalmente este PL constitui uma evolução necessária no pensamento sobre Tecnologia e Inovação Social no país. Ele traduz décadas de acúmulo teórico e experiência prática em um instrumento concreto de política pública, sem abrir mão dos princípios fundamentais de democratização do conhecimento, participação popular e respeito à diversidade de saberes. O PL não romantiza a pobreza, mas tampouco a aceita como inevitável, ele oferece ferramentas reais para superá-la pela via da inovação e da eficiência produtiva.

Um dos pilares dessa estratégia é fomentar por meio de editais, chamamento públicos e outros mecanismos, esse ecossistema de inovação social, cujos investimentos devidamente planejados, podem significar um alto retorno para a sociedade. Por exemplo, ao financiar a adaptação e a reaplicação em escala de soluções técnicas e organizacionais já validadas, injetamos eficiência produtiva diretamente na base da economia – nos empreendimentos solidários, na agricultura familiar, nas comunidades tradicionais. Isso gera renda, reduz desigualdades e fortalece cadeias produtivas locais, elementos fundamentais para uma soberania nacional que começa pela mesa do cidadão.

A certificação de viabilidade técnica, prevista no PL, é outro elemento de soberania. Num momento em que o Brasil aprofunda sua cooperação tecnológica com a China, como visto no recente memorando para máquinas e equipamentos agrícolas, é crucial que tenhamos padrões próprios e robustos para equipamentos de uso popular. Seja um kit de irrigação ou solar para o semiárido, uma máquina de beneficiamento de castanhas para extrativistas ou um aquecedor solar de baixo custo para periferias urbanas, a certificação garante qualidade, segurança e adequação à realidade brasileira, evitando que sejamos meros importadores de soluções genéricas.

A atitude visionária da deputada Jandira Feghali ao apresentar este PL merece reconhecimento e apoio amplo. Ela coloca o Brasil na vanguarda de uma discussão global, que é de direcionar o poder da inovação para o bem-estar coletivo e a preservação da vida. Esta não é uma lei para um governo, mas para o futuro do país. É a chance de construirmos, finalmente, um desenvolvimento tecnológico que seja, de fato, sinônimo de desenvolvimento humano.

DAYVID SANTOS é Doutor em Engenharia Industrial pela UFBA. Professor EBTT-DE do Instituto Federal Goiano. Membro da International Society on MCDM – Multiple Criteria Decision Making e da International Society for Development and Sustainability (ISDS). Atualmente está como Coordenador Geral de Tecnologia Social e Economia Solidária do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.