Os futuros do Brasil (por Marcos Magalhães)

Os futuros do Brasil (por Marcos Magalhães)

Uma trégua na disputa entre a equipe econômica e o mercado financeiro, sobre o futuro das contas públicas, deu ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a oportunidade de se dedicar a um passeio no futuro no campus da Universidade de São Paulo, no final de semana.

O ministro foi conhecer um dos projetos capazes de situar o Brasil na economia de baixo carbono que se desenha no mundo. Ele visitou o Centro de Pesquisa para a Inovação em Gases do Efeito Estufa, onde, em 2024, uma planta-piloto produzirá hidrogênio renovável a partir do etanol.

Por meio dessa iniciativa, que pode mudar o panorama do transporte pesado no país, caminhões e ônibus deixarão de lado os poluentes motores a óleo diesel e serão movidos pelo hidrogênio feito com etanol.

O mesmo valerá para automóveis. O novo combustível colocará em funcionamento um modelo Mirai, da Toyota – uma das empresas patrocinadoras do centro, como Shell Brasil e Raízen.

“Eu vim conhecer o que me parece o projeto mais avançado na área de transformação ecológica do Brasil”, disse Haddad. “Assumo o compromisso de levar a proposta à consideração dos órgãos federais”.

Na manhã de segunda-feira, em entrevista coletiva e já de volta aos embates do cotidiano, o ministro retomou durante evento em São Paulo a defesa de medidas necessárias ao combate à “erosão fiscal” herdada pelo atual governo.

Ao mesmo tempo se divulgava uma pesquisa de opinião segundo a qual 57% dos investidores julgam “a falta de uma política fiscal que funcione” como o principal problema da economia.

Esse cabo de guerra não tem data para acabar. Disseminou-se a impressão de que o Ministério da Fazenda enfrenta pressões dentro do próprio governo contra suas propostas de equilibrar receitas e despesas e alcançar, até o fim do governo, superávit primário nas contas públicas.

Enquanto os holofotes se dirigem a essa disputa sem fim, algumas iniciativas em gestação, tanto nos governos estaduais como no federal, começam a indicar que rumos o país poderá vir a adotar em uma mega competição global que ganhou ímpeto após a pandemia.

As duas maiores economias, Estados Unidos e China, movimentam bilhões de dólares e yuans em pesquisa e desenvolvimento de produtos capazes de se adaptar, ao mesmo tempo, à revolução digital em andamento e à transição ecológica.

Nesse momento, países em desenvolvimento, como Índia e Brasil, enfrentam o desafio de se manterem competitivos na nova economia que se desenha.

A Índia, que acaba de sediar uma reunião bem-sucedida do G20 – dos países mais ricos do mundo – parece ter escolhido suas apostas. Tem uma grande iniciativa de digitalização, com benefícios sociais, e um programa científico capaz de fazer pousar uma nave no Polo Sul da Lua.

E o Brasil? Por tudo que foi feito nas últimas décadas o país, que presidirá o G20 a partir de dezembro, se consolida como um dos maiores produtores agrícolas do mundo. Depois de se tornar líder nas exportações de soja, café, carne, frango e celulose, agora também toma a frente nas vendas de milho.

Como gostam de lembrar economistas do novo governo, porém, nenhum país do mundo se tornou plenamente desenvolvido sem uma indústria forte. E a indústria brasileira não para de perder participação no Produto Interno Bruto ao longo das últimas décadas.

O atual momento seria de neoindustrialização, como gosta de definir o vice-presidente e titular do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. O termo ainda causa alergia a economistas temerosos de uma demasiada proteção à produção nacional.

Por isso, além de se dedicar à costura do futuro equilíbrio fiscal, para conquistar a confiança do mercado, a equipe econômica precisa ter o cuidado de um artesão para tecer as medidas necessárias a dotar o país de maior competitividade no novo cenário geopolítico global.

Aqui se enquadram, por exemplo, os investimentos para a criação, em São Paulo, da usina piloto para a fabricação de hidrogênio a partir do etanol – em cuja produção, a partir de cana, milho e celulose, o Brasil já dispõe de grande experiência.

Essa seria uma alternativa menos onerosa para a eletrificação e descarbonização da frota nacional, especialmente de veículos pesados. E uma forma de tornar o país menos dependente – econômica e politicamente – de países exportadores de óleo diesel, por exemplo.

O hidrogênio verde também pode vir a ser produzido a partir da energia solar, abundante no Nordeste, e da energia eólica – tanto na terra como no mar. Empresas como a Petrobras, com muita experiência na plataforma continental, poderão investir na energia dos ventos em alto mar.

Movimentos como esses permitiriam ao Brasil não apenas exportar hidrogênio verde para mercados ávidos por combustíveis sustentáveis, como o europeu. Mas também usar o hidrogênio para produzir e exportar produtos como aço de baixo carbono.

Obviamente o Brasil não dispõe dos mesmos meios de países como os Estados Unidos, nessa corrida por uma economia mais verde e digitalizada.

O Chip Act norte-americano, por exemplo, garante US$ 52 bilhões (ou R$ 258 bilhões) em subsídios à produção de semicondutores nos Estados Unidos. Em comparação, o brasileiro Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) dispõe de R$ 700 milhões ao ano.

O governo ainda vai decidir, após a análise de um grupo de estudos composto por representantes da Casa Civil e de cinco ministérios, o destino do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), de fabricação de chips, que o governo anterior havia colocado em liquidação.

O centro chegou a ter, em Porto Alegre, 170 engenheiros especializados e hoje dispõe de menos de 70. Ele não tem como competir com grandes empresas globais, mas poderia vir a suprir demandas típicas de um país em desenvolvimento, em áreas como saúde e programas sociais.

Existem ainda setores onde as fronteiras da ciência e da tecnologia tendem a se encontrar com os recursos de um grande país tropical, como o Brasil. É o caso da bioeconomia, cujos primeiros produtos – sob a forma de cosméticos e farmacêuticos – começam a chegar aos mercados internacionais.

Um amplo cardápio de opções de negócios inovadores estará disponível nos próximos anos a investidores brasileiros e estrangeiros. A batalha inicial será a de conquistar a confiança desses investidores. A inspiração, para empreender, ficará por conta das potencialidades do Brasil.


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